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Questão FC43474

Recordação “Hoje a gente ia fazer vinte e cinco anos de casado”, ele disse, me olhando pelo retrovisor. Fiquei sem reação: tinha pegado o táxi na Nove de Julho, o trânsito estava r

Interpretação de Textos

IBFC · 2022

Recordação

 

“Hoje a gente ia fazer vinte e cinco anos de casado”, ele disse, me olhando pelo retrovisor. Fiquei sem reação: tinha pegado o táxi na Nove de Julho, o trânsito estava ruim, levamos meia hora pra percorrer a Faria Lima e chegar à rua dos Pinheiros, tudo no mais asséptico silêncio. Aí, então, ele me encara pelo espelhinho e, como se fosse a continuação de uma longa conversa, solta essa: “Hoje a gente ia fazer vinte e cinco anos de casado”.

 

Meu espanto não durou muito, pois ele logo emendou: “Nunca vou esquecer: 1o de junho de 1988. A gente se conheceu num barzinho lá em Santos e dali pra frente nunca ficou um dia sem se falar! Até que cinco anos atrás… Fazer o quê, né? Se Deus quis assim…”.

 

Houve um breve silêncio, enquanto ultrapassávamos um caminhão de lixo, e consegui encaixar um “Sinto muito”. “Brigado. No começo foi complicado, agora tô me acostumando. Mas sabe que que é mais difícil? Não ter foto dela.” “Cê não tem nenhuma?” “Não, tenho foto, sim, eu até fiz um álbum, mas não tem foto dela fazendo as coisas dela, entendeu? Tipo: tem ela no casamento da nossa mais velha, toda arrumada. Mas ela não era daquele jeito, com penteado, com vestido. Sabe o jeito que eu mais lembro dela? De avental. Só que toda vez que tinha almoço lá em casa, festa e alguém aparecia com uma câmera na cozinha, ela tirava correndo o avental, ia arrumar o cabelo, até ficar de um jeito que não era ela. Tenho pensado muito nisso aí, das fotos, falo com os passageiros e tal e descobri que é assim, é do ser humano mesmo. A pessoa, olha só, a pessoa trabalha todo dia numa firma, vamos dizer, todo dia ela vai lá e nunca tira uma foto da portaria, do bebedor, do banheiro, desses lugares que ela fica o tempo inteiro. Aí, num fim de semana ela vai pra uma praia qualquer, leva a câmera, o celular e tchuf, tchuf, tchuf. Não faz sentido, pra que que a pessoa quer gravar as coisas que não são da vida dela e as coisas que são, não? Tá acompanhando? Não tenho uma foto da minha esposa no sofá, assistindo novela, mas tem uma dela no jet ski do meu cunhado, lá na represa de Guarapiranga. Entro aqui na Joaquim?” “Isso.”

 

“Ano passado me deu uma agonia, uma saudade, peguei o álbum, só tinha aqueles retratos de casório, de viagem, do jet ski, sabe o que eu fiz? Fui pra Santos. Sei lá, quis voltar naquele bar onde a gente se conheceu.” “E aí?!” “Aí que o bar tinha fechado em 94, mas o proprietário, um senhor de idade, ainda morava no imóvel. Eu expliquei a minha história, ele falou: ‘Entra’. Foi lá num armário, trouxe uma caixa de sapatos e disse: ‘É tudo foto do bar, pode escolher uma, leva de recordação’.”

 

Paramos num farol. Ele tirou a carteira do bolso, pegou a foto e me deu: umas cinquenta pessoas pelas mesas, mais umas tantas no balcão. “Olha a data aí no cantinho, embaixo.” “Primeiro de junho de 1988?” “Pois é. Quando eu peguei essa foto e vi a data, nem acreditei, corri o olho pelas mesas, vendo se achava nós aí no meio, mas não. Todo dia eu olho essa foto e fico danado, pensando: será que a gente ainda vai chegar ou será que a gente já foi embora? Vou morrer com essa dúvida. De qualquer forma, taí o testemunho: foi nesse lugar, nesse dia, tá fazendo vinte e cinco anos hoje, hoje, rapaz. Ali do lado da banca, tá bom pra você?”

 

 (PRATA, Antonio. Trinta e poucos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 12)


A partir da leitura atenta do texto, é possível estabelecer uma visão defendida pelo taxista acerca das fotografias. Para ele, os registros fotográficos deveriam

  1. eternizar experiências singulares de diversão.
  2. privilegiar as cenas rotineiras do cotidiano.
  3. capturar as emoções escondidas das pessoas.
  4. ignorar fatos que foram comprovados.
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Gabarito

B

Comentário do professor

A alternativa correta para esta questão é a B: "privilegiar as cenas rotineiras do cotidiano".

O texto descreve, a partir da perspectiva do taxista, como ele valoriza momentos simples e cotidianos nas fotografias. Ele comenta sobre detalhes aparentemente banais da vida diária, como arrumar o cabelo ou tirar uma foto na cozinha, enfatizando as rotinas comuns e não momentos extraordinários. Isso demonstra a preferência do taxista por registrar e valorizar cenas do dia a dia, aspectos rotineiros e comuns da vida, algo que é recorrente em sua fala.

Agora, vamos analisar as alternativas incorretas:

  • A: "eternizar experiências singulares de diversão": Incorreta, pois o foco do taxista não está em registrar momentos únicos ou divertidos, mas sim cenas rotineiras e comuns do cotidiano.

  • C: "capturar as emoções escondidas das pessoas": Incorreta, pois o texto não enfatiza a captura de emoções profundas ou escondidas, mas sim detalhes simples e superficiais da rotina diária.

  • D: "ignorar fatos que foram comprovados": Incorreta, pois não há no texto qualquer menção ou ênfase em ignorar fatos comprovados; o taxista está mais preocupado com os detalhes do cotidiano.

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