Questão FC505061
TEXTO 1 CAATINGA LITERÁRIA E POLÍTICA Autor: Bruno Peron Publicado em 06/01/2014 A identidade do brasileiro também s entende a partir de relações entre antropologia e ecologia.Três
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TEXTO 1
CAATINGA LITERÁRIA E POLÍTICA
Autor: Bruno Peron
Publicado em 06/01/2014
A identidade do brasileiro também s entende a partir de relações entre antropologia e ecologia.Três processos migratórios esclarecem particularmente meu ponto: 1) o dos bandeirantes e sua ânsia de colonizar o interior do país; 2) o dos candangos e seu trabalho a favor da construção de Brasília como a nova capital monumental do Brasil; e 3) o dos sertanejos e sua luta contra um ecossistema indômito no nordeste brasileiro.
Discorro sobre estes últimos brevemente a fim de perscrutar particularidades da natureza nordestina. Nenhum bioma (conjunto de ecossistemas de uma área terrestre) é tão inerente ao Brasil quanto a Caatinga, que só existe neste país. É uma formação vegetal que caracteriza parte de todos os estados nordestinos e o norte de Minas Gerais.
A Caatinga é um bioma onde há poucas chuvas, solo seco e formação de arbustos e cactos. Nele está o cenário de galhos retorcidos. Ocupa 11% do território brasileiro, segundo informação de dezembro de 2013 fornecida pelo site do Ministério do Meio Ambiente. Da mesma maneira, as maiores dificuldades na Caatinga - decerto também nos outros biomas brasileiros - tem sido o de preservação ambiental e de uso dos recursos do solo (em agricultura e pecuária).
Outro problema considerável no debate político brasileiro é que a Caatinga abrange uma região que sofre de falta de água. Desta forma, pensa-se que a esperança dos habitantes da área afetada pela seca é a mudança do rio São Francisco de lugar para regar bocas e solos sedentos.O "rio da integração nacional" tem extensão de 2.800 quilômetros, nasce em Minas Gerais e corta os estados de Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco.
Porém, esta obra de transposição é bastante controversa, por um lado, devido aos prejuízos que causará aos sertanejos que já dispõem da irrigação pelo rio e dependem dele como fonte de sobrevivência. Por outro, a Caatinga será explorada como área fértil para a economia e, assim,desfigurará mais um pouco do bioma autenticamente brasileiro.
Sendo assim, o Estado brasileiro tenta legitimar o povoamento de áreas inóspitas (como digo que seja o sertão nordestino) e que deveriam ser de preservação ambiental e desenvolvimento científico (áreas urbanas na região Norte) num país onde há abundância de terras férteis. Em vez de eternizar a pobreza naquelas e desmatar estas para construir distritos industriais, os esforços poderiam voltar-se à maximização da qualidade de vida no litoral nordestino e à realocação de habitantes de áreas inóspitas para outras onde não se teria que transpor rios nem realizar outras obras dispendiosas.
A Caatinga poderia explorar-se como uma área de preservação ambiental, pesquisa científica, complexo turístico e treinamento militar. Contudo, estes exemplos não esgotam o que é possível fazer para que o Brasil tenha integração nacional sem o gasto em obras agigantadas e a manutenção de pessoas onde estas não deveriam viver. Assim, pensa-se na melhora da praticidade e da qualidade de vida na região nordestina.
No entanto, a interpretação da Caatinga que proponho aqui evidencia que uma das práticas do Estado brasileiro é jogar gente em todo e qualquer lugar (ou deixar que isto aconteça) como se espargem sementes numa plantação. O território tem-se integrado através do povoamento, como se fez na "zona franca" de Manaus e como se repete no cenário de Vidas secas, do escritor Graciliano Ramos. Em seu livro, Ramos lamenta a degradação das famílias sertanejas pela aspereza das condições do sertão nordestino.
O brasileiro não foge de desafios. Aceita enfrentar os óbices que a ecologia impõe ao seu entendimento antropológico. A Caatinga tem algo de literário e político. A situação ideal é que todos os brasileiros tenham condições de viver bem sem depender do Estado; mas, para alcançá-la, muitos brigam pelo seu espaço dentro da tal integração nacional.
(Adaptado de:
https://www.campograndenews.com.br/artigos/caatinga-
literaria-e-politica. Acesso em: 28/03/2024).
Em vez de eternizar a pobreza naquelas e desmatar estas para construir distritos industriais (...)
Os vocábulos sublinhados no trecho reportado acima remetem, nesta ordem, aos seguintes referentes textuais-discursivos:
- Terras férteis - áreas inóspitas.
- Terras férteis - áreas urbanas na região Norte.
- Áreas inóspitas - áreas urbanas na região Norte.
- Áreas urbanas na região Norte - áreas inóspitas.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
Naquelas retoma o substantivo feminino plural imediatamente expresso no contexto anterior: áreas inóspitas. O demonstrativo com preposição ("em + aquelas") indica lugar/condição já mencionada, isto é, perpetuar a pobreza naquelas áreas.
Estas refere-se ao outro referente feminino plural apresentado em parêntese: áreas urbanas na região Norte. A escolha de "estas" contrapõe-se a "naquelas" e aponta, por proximidade sintática e contraste semântico, às áreas que seriam desmatadas para receber distritos industriais.
Portanto, a leitura correta apoia-se na concordância de gênero/número e na relação de oposição/proximidade entre os demonstrativos e os referentes já explicitados no trecho.
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