Questão FC505563
Texto Saímos de Manaus numa lancha pequena, e no meio da manhã navegamos no coração do arquipélago das Anavilhanas. A ânsia de encontrar Dinaura me deixou desnorteado. A ânsia e as
Morfologia
IBFC · 2022
Texto
Saímos de Manaus numa lancha pequena, e no meio da manhã navegamos no coração do arquipélago das Anavilhanas. A ânsia de encontrar Dinaura me deixou desnorteado. A ânsia e as lembranças da Boa Vida. A visão do rio Negro derrotou meu desejo de esquecer o Uaicurapá. E a paisagem da infância reacendeu minha memória, tanto tempo depois.
Costelas de areia branca e estriões de praia em contraste com a água escura; lagos cercados por uma vegetação densa; poças enormes, formadas pela vazante, e ilhas que pareciam continente. Seria possível encontrar uma mulher naquela natureza tão grandiosa? No fim da manhã alcançamos o Paraná do Anum e avistamos a ilha do Eldorado. O prático amarrou os cabos da lancha no tronco de uma árvore; depois procuramos o varadouro indicado no mapa. A caminhada de mais de duas horas na floresta foi penosa, difícil. No fim do atalho, vimos o lago do Eldorado. A água preta, quase azulada. E a superfície lisa e quieta como um espelho deitado na noite. Não havia beleza igual. Poucas casas de madeira entre a margem e a floresta. Nenhuma voz. Nenhuma criança, que a gente sempre vê nos povoados mais isolados do Amazonas. O som dos pássaros só aumentava o silêncio. Numa casa com teto de palha pensei ter visto um rosto. Bati à porta, e nada. Entrei e vasculhei os dois cômodos separados por um tabique1 da minha altura.
Um volume escuro tremia num canto. Fui até lá, me agachei e vi um ninho de baratas-cascudas. Senti um abafamento, o cheiro e o asco dos insetos me deram um suadouro. Lá fora, a imensidão do lago e da floresta.
E silêncio. Aquele lugar tão bonito, o Eldorado, era habitado pela solidão. No fim do povoado encontramos uma casa de farinha. Escutamos uns latidos; o prático apontou uma casa na sombra da floresta. Era a única coberta de telhas, com uma varanda protegida por treliça de madeira e uma lata com bromélias ao lado da escadinha. Um ruído no lugar. Na porta vi o rosto de uma moça e fui sozinho ao encontro dela. Escondeu o corpo e eu perguntei se morava ali.
(HATOUM, Milton. Órfãos do Eldorado. São Paulo:
Companhia das Letras, 2008, p.101-102)1 divisória, tapume
Em alguns momentos, o narrador faz uso reiterado de um tipo de artigo, como se nota em “uma casa de farinha” ou “uns latidos”.
No texto, de modo geral, esses artigos reforçam:
- a incapacidade de nomear.
- a noção de quantidade.
- a ideia de imprecisão.
- um descuido de percepção.
Mostrar resposta e comentário
Gabarito
Certo
Comentário do professor
Artigo indefinido é o recurso linguístico que apresenta o substantivo de forma não determinada. No trecho, formas como uma (casa de farinha) e uns (latidos) não apontam para elementos precisos ou identificados pelo narrador.
Ao empregar esses artigos, o narrador introduz seres e objetos de maneira vaga: podem ser qualquer casa, quaisquer latidos, não há identificação única. Esse uso cria um efeito de generalização e indefinição do referente.
No plano narrativo, tal escolha reforça a sensação de incerteza e de busca do eu-lírico, além de contribuir para a atmosfera de isolamento e indeterminação do cenário.
Portanto, os artigos indefinidos reforçam a ideia de imprecisão presente no texto.
Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em