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Questão FC505600

- Credo, aquele estrelete?

Morfologia

IBFC · 2023

Vênus

(Caio Fernando Abreu)

 

Há seis anos, ele estava apaixonado por ela. Perdidamente. O problema – um dos problemas, porque havia outros, bem mais graves -, o problema inicial, pelo menos, é que era cedo demais. Quando se tem vinte ou trinta anos, seis anos de paixão pode ser muito (ou pouco, vai saber) tempo. Mas acontece que ele só tinha doze anos. Ela, um a mais. Estavam ambos naquela faixa intermediária em que ficou cedo demais para algumas coisas, e demasiado tarde para a maioria das outras.

 

Ela chamava-se Beatriz. Ele chamava-se – não vem ao caso. Mas não era Dante, ainda não. Anos mais tarde, tentaria lembrar-se de Como Tudo Começou. E não conseguia. Não conseguiria, claramente. Voltavam sempre cenas confusas na memória. Misturavam-se, sem cronologia, sem que ele conseguisse determinar o que teria vindo antes ou depois daquele momento em que, tão perdidamente, apaixonou-se por Beatriz.

 

Voltavam principalmente duas cenas. A primeira, num aniversário, não saberia dizer de quem. Dessas festas de verão, janelas da casa todas abertas, deixando entrar uma luz bem clara que depois empalideceria aos poucos, tingindo o céu de vermelho, porque entardecia. Ele lembrava de um copo de guaraná, da saia de veludo da mãe – sempre ficava enroscado na mãe, nas festas, espiando de longe os outros, os da idade dele. Lembrava do copo de guaraná, da saia de veludo (seria verde musgo?) e do balão de gás que segurava. Então a mãe perguntou, de repente, qual a menina da festa que ele achava mais bonita. Sem precisar pensar, respondeu:

 

- Beatriz.

 

A mãe riu, jogou para trás os cabelos – uns cabelos dourados, que nem o guaraná e a luz de verão – e disse assim:

 

- Credo, aquele estrelete?

 

Anos mais tarde, não encontraria no dicionário o significado da palavra estrelete. Mas naquele momento, ali com o balão em uma das mãos, o guaraná na outra, cotovelos fincados no veludo (seria azul-marinho?) da saia da mãe, pensou primeiro em estrela. Talvez por causa do movimento dos cabelos da mãe, quando tudo brilhou, ele pensou em estrela. Uma pequena estrela. Uma estrela magrinha, meio nervosa. Beatriz tinha um pescoço longo de bailarina que a fazia mais alta que as outras meninas, e um jeito lindo de brilhar quando movia as costas muito retas, olhando adulta em volta.

 

Estrelete estrelete estrelete estrelete – repetiu e repetiu até que a palavra perdesse o sentido e, reduzida a faíscas, saísse voando junto com o balão que ele soltou, escondido atrás do taquareiro. Bem na hora que o sol sumia e uma primeira estrela apareceu. Estrela-d’Alva, Vésper, Vênus, diziam. Diziam muitas coisas que ele ainda não entendia.

 

No fragmento “E não conseguia. Não conseguiria, claramente.” (2º§), a ideia de incapacidade é realçada pela repetição de um verbo que:

  1. na segunda ocorrência, aponta uma ação futura relacionada com o passado.
  2. na primeira ocorrência, indica uma ação do presente da enunciação.
  3. na segunda ocorrência, revela uma ação passada anterior à outra.
  4. na primeira ocorrência, mostra a única ocorrência de uma ação no passado.
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Gabarito

A

Comentário do professor

Alternativa A está correta porque a repetição do verbo cria um deslocamento temporal que reforça a ideia de incapacidade.

No trecho aparecem as formas conseguia (pretérito imperfeito do indicativo) e conseguiria (futuro do pretérito do indicativo). A primeira situa a ação como uma ocorrência no passado, descrevendo o estado dele naquele tempo.

A segunda forma, o futuro do pretérito, indica uma ação que seria futura em relação ao ponto referencial passado. Ou seja, aponta algo que, mesmo considerado a partir daquele passado, não aconteceria posteriormente.

Assim, a repetição verbal e a mudança de tempo reforçam a impossibilidade: ele não conseguia no passado e, prospectando esse mesmo passado, também não conseguiria, o que intensifica a noção de incapacidade.

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