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Questão FC505614

Qual dos dois é o vilão hoje?

Morfologia

IBFC · 2022

Texto

 

Faroeste

 

Naquele tempo o mocinho era bom.

 

Puro do cavalo branco até o chapelão imaculado.

 

A camisa limpa, com estrela de xerife. Luvas de couro, tímido e olho baixo. Namorando a mocinha, cisca nas pedras e espirra estrelinha com a espora da botina.

 

Nunca despenteia o cabelo nas brigas. Defende órfão e viúva. Com os brutos, implacável porém justo.

 

Frequenta o boteco pra chatear os bandidos.

 

Bebe um trago e disfarça a careta. Atira só em legítima defesa. O mocinho é sempre mocinho, nunca brinca de bandido.

 

Ah, o vilão todo de preto, duas pistolas no cinto prateado e um punhal (escondido) na bota – o segundo mais rápido do oeste. Bigodinho fino, risadinha cínica. Bebe, trapaceia no jogo. Cospe no chão. Mata pelas costas.

 

Covarde, patético, chora na cadeia. E morre, bem feito!, na forca.

 

Qual dos dois é o vilão hoje?

 

Se um quer roubar o ouro da mina do pai da mocinha, o outro também.

 

Sem piscar, um troca a mocinha pelo cavalo do outro.

 

Os punhos nus eram a arma do galã. Hoje briga sujo. Inimigo vencido, a cara no pó? Chuta de letra o nariz até esguichar sangue.

 

Costeleta e bigodinho ele também. Sem modos, entra de chapelão na casa do juiz. Corteja a heroína, já viu, aparando as unhas? Pífio jogador de pôquer, o toque na orelha esquerda significa trinca de sete.

 

A cada estalido na sombra já tem o dedo no gatilho – seu lema é atire primeiro e pergunte depois. Você por acaso fecha o olho do bandido que matou? Nem ele.

 

E a mocinha, de cachinho loiro e tudo, que vergonha!

 

Começa que moça direita nunca foi. Cantora fuleira de cabaré, gira a valsa do amor nos braços de um e de outro.

 

Por interesse, casa com o chefão do bando. Casa com o pai do mocinho. Até com o mocinho ela casa.

 

Deixa estar, guri não é trouxa. Torce pelo bandido.

 

(TREVISAN, Dalton. O beijo na nuca. Rio de Janeiro: Record, 2014. P.66-67)

 

A transitividade de um verbo é dada pela relação sintática que estabelece na oração.

 

Considerando o conceito de complemento verbal, em “E morre, bem feito!, na forca”, nota-se que o verbo em destaque:

  1. possui um complemento preposicionado que indica o local da morte.
  2. apresenta dois complementos, um em registro formal e o outro, informal.
  3. é seguido por uma expressão informal, mas não apresenta complemento.
  4. tem como complemento apenas uma expressão típica da oralidade.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

A alternativa aponta corretamente que, embora ocorra uma expressão coloquial após o verbo, não há complemento verbal. O critério decisivo é que o complemento verbal é o termo exigido pelo verbo para completar seu sentido.

O verbo morrer é intransitivo: não pede objeto direto nem indireto. Portanto, não admite complemento exigido por sua regência.

A sequência “bem feito!” funciona como expressão avaliativa/coloq uial, um comentário parentético de tom oral, e “na forca” indica lugar, isto é, um adjunto adverbial, termo opcional. Nenhum dos dois constitui complemento verbal.

Conclui-se que o verbo em destaque é seguido por uma expressão informal, mas não apresenta complemento, confirmando a letra C.

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