Questão FC505621
Texto I “Explicar, a mim, como é Alejandra, Bruno ponderou, como é seu rosto, como são as dobras de sua boca.” E pensou que eram justamente essas dobras desdenhosas e um certo bril
Morfologia
IBFC · 2022
Texto I
“Explicar, a mim, como é Alejandra, Bruno ponderou, como é seu rosto, como são as dobras de sua boca.” E pensou que eram justamente essas dobras desdenhosas e um certo brilho tenebroso nos olhos que diferenciavam mais que tudo o rosto de Alejandra do rosto de Georgina, a quem ele amara de verdade. Pois, agora compreendia, a ela é que amara realmente, e quando imaginou estar apaixonado por Alejandra era a mãe de Alejandra que buscava, como esses monges medievais que tentavam decifrar o texto primitivo debaixo das restaurações, debaixo das palavras apagadas e substituídas. E essa insensatez fora a razão de tristes mal-entendidos com Alejandra, tendo às vezes a mesma sensação de quem, após muitíssimos anos de ausência, chega à casa da infância e, ao tentar de noite abrir uma porta, depara com uma parede. Claro que seu rosto era quase o mesmo de Georgina: o mesmo cabelo preto com reflexos avermelhados, os olhos cinza-esverdeados, a boca idêntica e grande, as mesmas faces mongólicas, a mesma pele morena e pálida. Mas o “quase” era atroz, e mais ainda por ser tão sutil e imperceptível, pois assim o equívoco era mais profundo e doloroso. Os ossos e a carne – pensava – não bastam para formar um rosto, e é por isso que ele é infinitamente menos físico do que o corpo: é determinado pelo olhar, pelo ríctus da boca, pelas rugas, por todo esse conjunto de atributos sutis com que a alma se revela por meio da carne. Razão pela qual, no momento exato em que alguém morre, seu corpo se transforma abruptamente numa coisa diferente, tão diferente a ponto de se poder dizer “não parece a mesma pessoa”, apesar de ter os mesmos ossos e a mesma matéria de um segundo antes, um segundo antes desse misterioso instante em que a alma se retira do corpo e este fica tão morto como uma casa da qual se retiram para sempre os seres que moram nela, e, sobretudo, que sofreram e se amaram nela.
(SABATO, Ernesto. Sobre heróis e tumbas. São Paulo: Planeta De Agostini, 2003, p.22-23)
Na oração “a quem ele amara de verdade”, a flexão do verbo é marcada por uma regularidade que indica tempo e modo. Tal flexão confere ao verbo o sentido de uma ação:
- futura que não será realizada em função de fato passado.
- do presente que dialoga com episódios do passado.
- do passado que é replicada em momentos futuros.
- do presente que se articula com uma projeção futura.
- passada anterior às ações enunciadas no passado.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
O verbo em destaque é "amara", que está flexionado no pretérito mais-que-perfeito do indicativo.
Esse tempo verbal indica anterioridade em relação a outro fato também passado: sinaliza que uma ação ocorreu antes de outra já situada no passado.
O modo indicativo reforça que se trata de um fato apresentado como real no relato, não de hipótese ou desejo.
No contexto de "a quem ele amara de verdade", a forma comunica que o amor por Georgina antecedeu cronologicamente as demais ações narradas no passado, ou seja, ele já havia amado Georgina antes dos eventos posteriores descritos.
Portanto, a flexão confere ao verbo o sentido de uma ação passada e anterior às demais ações enunciadas no texto.
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