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Questão FC505638

Considere o texto seguinte para responder à questão Texto Tem uma porção de maneiras estúpidas de uma criança morrer. Por exemplo descer uma escada segurando um pote de vidro em ca

Morfologia

IBFC · 2024

Considere o texto seguinte para responder à questão

 

Texto

 

Tem uma porção de maneiras estúpidas de uma criança morrer. Por exemplo descer uma escada segurando um pote de vidro em cada mão e escorregar e cortar os dois pulsos. De todo jeito a morte sempre foi uma coisa barulhenta, a criança com os pulsos rasgados vai gritar caída na escada e esse grito vai ficar ali meio vibrando até a mãe entrar dez minutos tarde demais, e a mãe vai viver pra sempre imaginando aquele grito que ela não ouviu. A morte é uma coisa que avisa, que arma um escândalo na rua, no bar, que apita no hospital, que telefona na casa de todos os parentes, e eles saem correndo como se agora adiantasse, a morte para mim era assim.

 

Mas daí esse ano eu descobri que a morte pode ser silenciosa, muito mesmo. E tóxica. É possível morrer velho e quieto dentro da própria casa deitado na cama sem tempo de gritar, e dessa morte não sai um aviso, um apito imediato, não, as coisas fora da morte continuam iguais, e essa morte quieta pode ficar três, quatro dias tomando liberdade, contaminando as coisas que vão morrendo junto, o colchão, a cama, o piso de madeira, começa a vazar um sangue que não é mais necessário, e vai crescendo um cheiro que nenhum humano vivo consegue suportar, só os mortos.

 

E quando enfim a família descobre eles fogem batendo a porta do apartamento e gritam o grito que o morto não deu, e tudo é muito pior porque elas descobrem que deixaram o morto sozinho três ou quatro dias, tão sozinho que não tinha nem ele mesmo. Uma solidão morta, tão horrorosa que vai tomando conta da casa inteira e quando finalmente alguém descobre você já está metade consumido de solidão. [...]

 

Daí que de tempos em tempos eu me lembro disso, de que eu posso morrer a qualquer tempo e tudo acabar, então eu presto muita atenção na minha respiração, puxo o ar bem devagar e fundo, depois seguro um tempo, e observo o ar sair, e se isso está ocorrendo direito e dentro dos meus comandos, é porque a morte não está aqui, se ela estivesse eu puxaria o ar e ele não viria, ou sairia depressa antes que eu mandasse, ou não encheria direito o meu pulmão, ou não subiria até minha cabeça.

 

(CARRARA, Mariana Salomão. Se Deus me chamar não vou. São Paulo: Editora Nós, 2019, p.71-73)

 

No primeiro parágrafo, nota-se o uso reiterado da locução verbal formada por “vai + infinitivo”. Sobre essas construções, é correto afirmar que:

  1. embora o verbo principal varie, as locuções exprimem as mesmas ações.
  2. ainda que o verbo auxiliar esteja no presente, a locução traz ideia de futuro.
  3. o verbo principal concorda com o sujeito simples de cada construção.
  4. a ideia principal da ação está restrita ao verbo que se flexiona em tempo e modo.
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Gabarito

B

Comentário do professor

“vai + infinitivo” é uma locução verbal em que o verbo auxiliar (ir no presente do indicativo) marca o tempo e a concordância, enquanto o verbo principal permanece no infinitivo e aporta o conteúdo lexical da ação.

Gramaticalmente, apesar de vai estar no presente, a construção indica futuro, normalmente um futuro próximo ou considerado certo pelo falante. Em frases como vai gritar, vai ficar e vai viver, o locutor projeta ações que ainda ocorrerão.

Do ponto de vista semântico, essa perífrase confere imediatismo e maior convicção sobre o acontecimento, tornando-o mais concreto na narrativa. Por isso, a afirmação de que, embora o auxiliar esteja no presente, a locução exprima ideia de futuro é correta.

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