Questão FC505642
Texto I Mirtes Aparecida da Luz Quando Mirtes Aparecida da Luz veio me abrir a porta, no mesmo instante em que eu dava as primeiras pancadinhas, tal foi a desenvoltura dela, que ch
Morfologia
IBFC · 2024
Texto I
Mirtes Aparecida da Luz
Quando Mirtes Aparecida da Luz veio me abrir a porta, no mesmo instante em que eu dava as primeiras pancadinhas, tal foi a desenvoltura dela, que cheguei a duvidar de que a moça não enxergasse, tanto quanto eu. Com o mesmo desembaraço me apontou a cadeira, abriu a cristaleira para retirar as xícaras, coou o café e me passou os biscoitinhos caseiros, feitos por ela mesma. Só acreditei que Da Luz (a maneira pela qual ela gosta de ser chamada) não estava me enxergando do mesmo modo como eu a via, quando pediu licença para tocar o meu rosto e segurar as minhas mãos, para saber realmente com quem estava falando. E, depois de suaves toques sobre os meus cabelos, meus olhos, minha boca, e de leves tapinhas sobre as minhas mãos, concluiu que eu estava tensa. Não era ainda, portanto, a hora de começar a trocar nossas histórias. Aceitei as considerações dela. Era verdade, eu estava muito tensa. A condição de minha interlocutora me colocava em questão. Como contemplar os olhos dela encobertos por óculos escuros? Para mim, uma conversa, ainda mais que eu estava ali para ouvir, tinha de ser olho no olho. Para isso, o gravador ficava esquecido sobre a mesa e eu só me desvencilhava do olhar da depoente, ou deixava de olhá-la, quando tinha de virar ou colocar uma nova fita. E nos casos em que a narradora não me contemplava, eu podia acompanhar o olhar dela, como aconteceu, quando ouvi Campo Belo, que falava comigo, mas seu olhar estava dirigido para a foto da filha. Como acompanhar o olhar de Da Luz? Como saber para onde ela estava olhando? E, talvez adivinhando as minhas dúvidas e mesmo o meu constrangimento, horas depois de me mostrar toda a casa, de me chamar para um passeio pelas redondezas, de fazer duas belas tranças nagôs em meus cabelos, do mesmo jeito que estavam penteados os dela, Da Luz me conduziu ao seu quarto. Abriu a janela, deixando um ameno sol de final de tarde entrar, e me perguntou se eu me incomodava de conversarmos ali. – Lá fora corro o risco de me distrair com tudo que me cerca. Dizendo isso, suas mãos caminharam para o meu rosto, procurando suavemente os meus olhos. E, com gestos mais delicados ainda, seus dedos tocaram minhas pálpebras, em movimentos de cima para baixo. Levei um breve instante para entender as intenções de Da Luz. Ela queria que eu fechasse os olhos. Fechei. [...]
(EVARISTO, Conceição. Insubmissas lágrimas de mulheres. Rio de Janeiro: Malê, 2016, p. 81-82)
Considere o seguinte fragmento para responder a questão abaixo.
“Com o mesmo desembaraço me apontou a cadeira, abriu a cristaleira para retirar as xícaras, coou o café e me passou os biscoitinhos caseiros, feitos por ela mesma.”
A sequência de verbos flexionados no pretérito perfeito contribui para o caráter narrativo do texto e indica ações que:
- ocorreram em um momento pontual do passado.
- constituem hábitos praticados no passado.
- iniciadas no passado, estendem-se ao presente.
- relacionadas ao passado, ocorrerão no futuro.
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Gabarito
A
Comentário do professor
Pretérito perfeito indica ações concluídas em um momento determinado do passado. No enunciado, as formas verbais situam fatos já encerrados, não deixam abertura para continuidade temporal.
No trecho, as ações apontou, abriu, coou, passou aparecem em sequência, cada uma plenamente realizada. Essa escolha verbal fixa os acontecimentos em um instante vivido, oferecendo ao leitor uma sucessão cronológica clara.
Ao empregar o pretérito perfeito, o narrador produz efeito de relato imediato e conclusivo, conferindo ao trecho caráter narrativo e temporalidade pontual.
Em suma, a flexão verbal aqui reforça que se tratou de eventos ocorridos em um momento específico do passado, completados e registrados pela narrativa.
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