Questão FC505665
Texto Eu deveria cantar. Rolar de rir ou chorar, eu deveria, mas tinha desaprendido essas coisas. Talvez então pudesse acender uma vela, correr até a igreja da Consolação, rezar um
Morfologia
IBFC · 2022
Texto
Eu deveria cantar.
Rolar de rir ou chorar, eu deveria, mas tinha desaprendido essas coisas. Talvez então pudesse acender uma vela, correr até a igreja da Consolação, rezar um Pai Nosso, uma Ave Maria e uma Glória ao Pai, tudo que eu lembrava, depois enfiar algum trocado, se tivesse, e nos últimos meses nunca, na caixa de metal “Para as Almas do Purgatório”. Agradecer, pedir luz, como nos tempos em que tinha fé.
Bons tempos aqueles, pensei. Acendi um cigarro. E não tomei nenhuma dessas atitudes, dramáticas como se em algum canto houvesse sempre uma câmera cinematográfica à minha espreita. Ou Deus. Sem juiz nem plateia, sem close nem zoom, fiquei ali parado no começo da tarde escaldante de fevereiro, olhando o telefone que acabara de desligar. Nem sequer fiz o sinal da cruz ou levantei os olhos para o céu. O mínimo, suponho, que um sujeito tem a obrigação de fazer nesses casos, mesmo sem nenhuma fé, como se reagisse a uma espécie de reflexo condicionado místico.
Acontecera um milagre. Um milagre à toa, mas básico para quem, como eu, não tinha pais ricos, dinheiro aplicado, imóveis, nem herança e apenas tentava viver sozinho numa cidade infernal como aquela que trepidava lá fora, além da janela ainda fechada do apartamento. Nada muito sensacional, tipo recuperar de súbito a visão ou erguer-se da cadeira de rodas com o semblante beatificado e a leveza de quem pisa sobre as águas. Embora a miopia ficasse cada vez mais aguda e os joelhos tremessem com frequência, não sabia se fome crônica ou pura tristeza, meus olhos e pernas ainda funcionavam razoavelmente. Outros órgãos, verdade, bem menos.
Toquei o pescoço. E o cérebro, por exemplo.
Já chega, disse para mim mesmo, parado nu no meio da penumbra gosmenta do meio-dia. Pense nesse milagre, homem. Singelo, quase insignificante na sua simplicidade, o pequeno milagre capaz de trazer alguma paz àquela série de solavancos sem rumo nem ritmo que eu, com certa complacência e nenhuma originalidade, estava habituado a chamar de minha vida, tinha um nome. Chamava-se – um emprego.
(ABREU, Caio Fernando. Onde andará Dulce Veiga? São Paulo: Planeta De Agostini, 2003, p.11-12).
Considere a passagem “Acendi um cigarro. E não tomei nenhuma dessas atitudes” (3º§).
O emprego do pronome demonstrativo presente em “dessas atitudes” é justificado pelo seguinte papel coesivo:
- proximidade espacial em relação ao interlocutor.
- referência a elementos já apresentados no texto.
- referência antecipada a elementos pouco específicos.
- proximidade de tempo entre a enunciação e a referência.
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Gabarito
B
Comentário do professor
"Dessas" (contração de de + essas) funciona no trecho como um elemento que retoma algo já expresso no discurso. Trata-se de um apontador textual que não introduz nova informação, mas reconecta o leitor ao conteúdo anterior.
Essa retomada é uma forma de coesão referencial do tipo anafórica, pois o pronome aponta para atitudes previamente mencionadas pelo narrador, como cantar, rolar de rir ou chorar, acender vela, rezar e colocar trocado na caixa.
Ao empregar "dessas atitudes", o autor evita repetição, estabelece continuidade temática e mantém a fluidez do texto ao ligar a ação imediata (acender um cigarro) ao conjunto de comportamentos já descritos.
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