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Questão FC505676

Texto I A passagem por Budapeste se dissipara no meu cérebro. Quando a recordava, era como um rápido acidente, um fotograma que trepidasse na fita da memória. Um lance ilusório, ta

Morfologia

IBFC · 2024

Texto I

A passagem por Budapeste se dissipara no meu cérebro. Quando a recordava, era como um rápido acidente, um fotograma que trepidasse na fita da memória. Um lance ilusório, talvez, que me dispensei de referir à Vanda ou a quem quer que fosse. É verdade que a Vanda tampouco se preocupava em saber que grandes escritores eram esses que eu encontrava todo ano, em congressos que ninguém noticiava. Talvez se defendesse de fantasiar aventuras do marido mundo afora, poetisas, dramaturgas, antropólogas que me fizessem perder o juízo e o avião de volta. Portanto, seria estúpido relatar, sem convicção, a uma Vanda que não queria ouvir, a minha madrugada solitária de Budapeste. E hoje aquela Budapeste estaria morta e sepultada, não fosse o menino levantá-la do meu sonho. Uma tentativa de se aproximar do pai, compreendi logo mais, que eu a rechaçara com uma brutalidade inexplicável. Às seis e meia em ponto das manhãs seguintes, quando mãe e filho acordavam com o despertador, me obriguei a também me por de pé. Passei a dedicar ao menino o tempo que me sobrava antes do trabalho, usado em geral para me espreguiçar, pensar na vida e ler jornais no banheiro. Agora, quando a Vanda saía para a televisão, eu ficava na copa tomando café com o meu filho. Observando-o às voltas com os sorvetes e coca-colas, procurava restaurar as feições perdidas em seu rosto flácido, e admiti que eram as de um menino muito bonito. Com a ponta do guardanapo, limpava-lhe a boca dos sucrilhos e encontrava os lábios carnudos da mãe, como da mãe eram seus olhos negros. [...]

(BUARQUE, Chico. Budapeste. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p.31-32)

 

Considere a passagem seguinte para responder à questão.

“É verdade que a Vanda tampouco se preocupava em saber que grandes escritores eram esses que eu encontrava todo ano”

 

O vocábulo “tampouco” cumpre, no texto, o papel semântico, assinale a alternativa correta.

  1. Reforçar uma negação.
  2. Suavizar a ação descrita.
  3. Indefinir o sujeito da ação.
  4. Enfatizar o ato de “se preocupar”
  5. Explicitar uma ação reflexiva.
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Gabarito

A

Comentário do professor

tampouco funciona aqui como advérbio de negação, ou seja, acrescenta uma ideia negativa ao enunciado: equivale a nem ou também não.

No exemplo, ao dizer «a Vanda tampouco se preocupava», o autor informa que, além de outros fatos implícitos no contexto, a Vanda também não tinha essa atitude. O advérbio incide sobre o verbo se preocupava, conferindo-lhe valor negativo.

Gramaticalmente, tampouco estabelece uma negação adicional em relação a algo já negado ou não realizado no discurso. Exemplo paralelo: «Ele não veio; tampouco telefonou.»

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