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Questão FC505730

Parece que ninguém está nem aí para você? É a tecnologia da desescutação? (Christian Dunker) Tendemos a interpretar palavras como “arte” ou “tecnologia” com um sentido positivo. No

Morfologia

IBFC · 2024

Parece que ninguém está nem aí para você? É a tecnologia da desescutação? (Christian Dunker)

 

Tendemos a interpretar palavras como “arte” ou “tecnologia” com um sentido positivo. No entanto, existem artes que prosperam de forma silenciosa ou indireta, que nos levam a técnicas de si, que em um contexto social podem ser produtivas ou de acordo com ideais e em outro se tornam profundamente contraproducentes.

 

Pensemos em Dom Quixote, que se apega a valores como honra, coragem e nobreza, mas se torna um personagem anacrônico a ponto de ser tomado por louco.

 

Por exemplo em uma cultura de altíssimo engajamento atencional, contra a oferta digital de dispersão, produzirá um sentimento genérico de que estamos todos desatentos, desconcentrados e sem foco. Assim também a arte de deixar de escutar o outro pode ser desenvolvida no contexto de excesso de foco em outras coisas.

 

Tecnologias de desescutação podem ser descritas, assim como qualidades do tipo “fidelidade a objetivos”, aderência à disciplina”, “foco em resultados” podem concorrer para a desescutação. [...]

 

A sensação é de que está cada vez mais difícil escutar o outro. Assumir a sua perspectiva, refletir, reposicionar-se e fazer convergir diferenças está cada vez mais difícil de ser praticada. Isso se aplica tanto ao espaço público com suas novas e inesperadas conformações digitais quanto ao espaço privado das relações amorosas ou amistosas, passando pelas relações laborais e institucionalizadas. Uma descrição resumida desta situação costuma salientar que nossa vida está cada vez mais acelerada, icônica e funcionalizada.

 

A aceleração é um fenômeno da cultura da performance generalizada, derivada do universo da produção e da soberania do resultado.

 

Vivemos hoje com um acervo de instrumentos e meios que excedem o limite de nossas faculdades mentais “em estado natural”. Isso afeta brutalmente a situação de fala, que de certa forma se torna um pouco anacrônica.

 

Não é por acaso que novas síndromes envolvendo mutismo seletivo (como o do personagem Rajesh Koothrappali do seriado “The Big Bang Theory”) e o mutismo generalizado em crianças sejam cada vez mais frequentes. Neste ponto, não há exatamente uma novidade, mas o exagero e aprofundamento deste princípio que define a modernidade desde Baudelaire e Benjamin. [...]

 

(Disponível em: https://www.uol.com.br/tilt/colunas/blog-do-dunker/. Acesso em 06 de junho de 2024)

 

O vocábulo “desescutação”, empregado no texto, deve ser compreendido como:

  1. um verbo que indica a ação de negligenciar o que o outro diz.
  2. um adjetivo que revela a capacidade de deixar de ouvir o outro.
  3. um advérbio que indica a forma pouco atenta de escutar o outro.
  4. um substantivo que se refere ao ato não escutar o outro.
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Gabarito

D

Comentário do professor

Desescutação é apresentada no texto como um substantivo que nomeia o ato ou processo de não escutar o outro. Trata-se de um termo que designa uma condição ou prática, e não um verbo conjugado.

Morfologicamente o significado fica claro: o prefixo des- indica negação, a base escutar traz o sentido de ouvir e o sufixo -ação forma substantivos que exprimem ação ou resultado. Dessa combinação surge um substantivo abstrato que condensa a ideia de deixar de ouvir.

No contexto do texto, desescutação descreve um fenômeno cultural e relacional, aplicável a atitudes individuais e a práticas coletivas. Como substantivo abstrato, pode ocupar funções sintáticas como sujeito ou objeto e ajuda a identificar causas tecnológicas e culturais que favorecem o silêncio nas relações.

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