Questão FC505796
Texto I Maria-Nova ouvia a história que Bondade contava e, por mais que quisesse conter a emoção, não conseguia. Hora houve em que ele percebeu e se calou um pouco. Calou-se também
Semântica
IBFC · 2022
Texto I
Maria-Nova ouvia a história que Bondade contava e, por mais que quisesse conter a emoção, não conseguia. Hora houve em que ele percebeu e se calou um pouco. Calou-se também com um nó na garganta, pois sabido é que Bondade vivia intensamente cada história que narrava, e Maria-Nova, cada história que escutava. Ambos estão com o peito sangrando. Ele sente remorsos de já ter contato tantas tristezas para Maria-Nova. Mas a menina é do tipo que gosta de pôr o dedo na ferida, não na ferida alheia, mas naquela que ela traz no peito. Na ferida que ela herdou de Mãe Joana, de Maria-Velha, de Tio Totó, do Louco Luisão da Serra, da avó mansa, que tinha todo o lado direito do corpo esquecido, do bisavô que tinha visto os sinhôs venderem Ayaba, a rainha. Maria-Nova, talvez, tivesse o banzo1 no peito. Saudades de um tempo, de um lugar, de uma vida que ela nunca vivera. Entretanto o que doía mesmo em Maria-Nova era ver que tudo se repetia, um pouco diferente, mas, no fundo, a miséria era a mesma. O seu povo, os oprimidos, os miseráveis; em todas as histórias, quase nunca eram os vencedores, e sim, quase sempre, os vencidos. A ferida dos do lado de cá sempre ardia, doía e sangrava muito.
(EVARISTO, Conceição. Becos da Memória. Rio de Janeiro: Pallas, 2017)
1 para os escravizados, era como se chamava o sentimento de melancolia em relação à terra natal e de aversão à privação da liberdade
A linguagem figurada também é empregada em “que tinha todo o lado direito do corpo esquecido”. Com esse emprego, consegue-se:
- suavizar o impacto de um problema físico.
- potencializar as causas da doença descrita.
- reforçar a localização das dores sentidas.
- aproximar as dores físicas das psicológicas.
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Gabarito
A
Comentário do professor
A expressão "que tinha todo o lado direito do corpo esquecido" funciona como um eufemismo. Ao escolher "esquecido" em vez de termos técnicos ou brutais, o enunciador suaviza o impacto da condição física, tornando a descrição menos chocante e mais sensível.
Esse procedimento linguístico desloca a ênfase do dado clínico para a percepção subjetiva: a imagem personifica o corpo, cria compaixão e mantém o tom narrativo. Em vez de expor uma limitação de forma crua, a expressão transmite a ideia de perda ou inutilidade com delicadeza, preservando a carga emocional da cena.
Portanto, a construção cumpre a função de amenizar a dureza do fato, integrando-o ao clima afetivo do texto.
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