Questão FC505837
Texto I “Explicar, a mim, como é Alejandra, Bruno ponderou, como é seu rosto, como são as dobras de sua boca.” E pensou que eram justamente essas dobras desdenhosas e um certo bril
Semântica
IBFC · 2022
Texto I
“Explicar, a mim, como é Alejandra, Bruno ponderou, como é seu rosto, como são as dobras de sua boca.” E pensou que eram justamente essas dobras desdenhosas e um certo brilho tenebroso nos olhos que diferenciavam mais que tudo o rosto de Alejandra do rosto de Georgina, a quem ele amara de verdade. Pois, agora compreendia, a ela é que amara realmente, e quando imaginou estar apaixonado por Alejandra era a mãe de Alejandra que buscava, como esses monges medievais que tentavam decifrar o texto primitivo debaixo das restaurações, debaixo das palavras apagadas e substituídas. E essa insensatez fora a razão de tristes mal-entendidos com Alejandra, tendo às vezes a mesma sensação de quem, após muitíssimos anos de ausência, chega à casa da infância e, ao tentar de noite abrir uma porta, depara com uma parede. Claro que seu rosto era quase o mesmo de Georgina: o mesmo cabelo preto com reflexos avermelhados, os olhos cinza-esverdeados, a boca idêntica e grande, as mesmas faces mongólicas, a mesma pele morena e pálida. Mas o “quase” era atroz, e mais ainda por ser tão sutil e imperceptível, pois assim o equívoco era mais profundo e doloroso. Os ossos e a carne – pensava – não bastam para formar um rosto, e é por isso que ele é infinitamente menos físico do que o corpo: é determinado pelo olhar, pelo ríctus da boca, pelas rugas, por todo esse conjunto de atributos sutis com que a alma se revela por meio da carne. Razão pela qual, no momento exato em que alguém morre, seu corpo se transforma abruptamente numa coisa diferente, tão diferente a ponto de se poder dizer “não parece a mesma pessoa”, apesar de ter os mesmos ossos e a mesma matéria de um segundo antes, um segundo antes desse misterioso instante em que a alma se retira do corpo e este fica tão morto como uma casa da qual se retiram para sempre os seres que moram nela, e, sobretudo, que sofreram e se amaram nela.
(SABATO, Ernesto. Sobre heróis e tumbas. São Paulo: Planeta De Agostini, 2003, p.22-23)
A respeito da expressão destacada em “Claro que seu rosto era quase o mesmo de Georgina”, é correto afirmar que, na frase em que encontra, estabelece um papel de:
- predicativo em relação à oração seguinte.
- retificação em relação ao que se afirmou.
- realce em relação a uma declaração.
- conotativo a partir de um termo figurado.
- comparativo ao igualar um mesmo atributo.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
A locução claro que atua aqui como elemento de realce pragmático sobre a declaração que se segue. Não cumpre função sintática; antes, sinaliza confirmação e intensidade da ideia exposta.
Percebe-se a omissão corriqueira de é em fala e escrita: "[É] claro que seu rosto era quase o mesmo de Georgina". Essa elipse evidencia que a marca serve para enfatizar, não para alterar a estrutura gramatical da oração.
Se suprimida, a mensagem permanece compreensível: Seu rosto era quase o mesmo de Georgina. A presença de claro que apenas reforça a certeza do enunciador sobre a afirmação, confirmando seu papel de realce.
Portanto, a alternativa que aponta realce em relação a uma declaração descreve corretamente a função da expressão no contexto.
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