Questão FC505841
Texto II O texto abaixo é um fragmento de uma obra de ficção do escritor brasileiro Lima Barreto, na qual é descrito um país imaginário, Bruzundanga. Os heróis A república da Bruzu
Semântica
IBFC · 2022
Texto II
O texto abaixo é um fragmento de uma obra de ficção
do escritor brasileiro Lima Barreto, na qual é descrito
um país imaginário, Bruzundanga.
Os heróis
A república da Bruzundanga, como toda pátria que se preza, tem também os seus heróis e as suas heroínas.
Não era possível deixar de ser assim, tanto mais que a pátria sempre foi feita para os heróis, e estes, sinceros ou não, cobrem e desculpam o que ela tem de sindicato declarado.
Um país como a Bruzundanga precisa ter os seus heróis e as suas heroínas para justificar aos olhos do seu povo a existência fácil e opulenta das facções que a têm dirigido.
O mais curioso herói da pátria bruzundanguense é sem dúvida uma senhora que nada fez por ela, antes perturbou-lhe a vida, auxiliando um aventureiro estrangeiro que se meteu nas suas guerras civis.
Para bem compreenderem o meu pensamento, é preciso que antes lhes recorde por alto alguns pontos da história política da Bruzundanga. Vou fazê-lo.
A atual República consta de territórios descobertos pelos iberos e povoados por eles e por outros povos das mais variadas origens.
Os colonizadores fundaram várias feitorias; e, quando fizeram a independência da Bruzundanga, essas feitorias ficaram sendo províncias do Império que foi criado.
Feita a República, elas ficaram mais ou menos como eram, com mais independência e outras regalias. Portanto, é claro que a evolução política da Bruzundanga tinha por expressão a unidade dessas províncias, e era mesmo o seu fim. Qualquer pessoa que tenha tentado, ou venha tentar, o desmembramento dessas províncias não pode ser tido como herói nacional.
Pois bem: um senhor estrangeiro, cheio de qualidades, talvez, meteu-se de parceria com uns rebeldes, para separar uma dessas províncias do bloco bruzundanguense. Isto ao tempo do Império. Em caminho, em umas das suas correrias, encontrou-se com uma moça da Bruzundanga que se apaixonou por ele. Seguiu-o nas suas aventuras e combates contra a união bruzundanguense. [...]
(BARRETO, Lima. Os Bruzundangas. São Paulo: Ed. Ática, 2011)
Destacam-se duas ocorrências do vocábulo “antes” em “antes perturbou-lhe” e “é preciso que antes lhes recorde”. Considerando o contexto em que se encontram, é correto afirmar que exprimem, respectivamente:
- contrariedade e tempo.
- tempo e relevância.
- conclusão e contrariedade.
- tempo e conclusão.
- relevância e contrariedade.
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Gabarito
A
Comentário do professor
A alternativa A é correta porque o vocábulo antes assume sentidos distintos nas duas ocorrências do texto.
Em "antes perturbou-lhe a vida" antes indica contrariedade: contrapõe-se à expectativa de que a heroína tivesse feito algo útil; em vez disso, prejudicou a pátria. Há, portanto, sentido de ressalva ou oposição.
Já em "é preciso que antes lhes recorde" antes marca ordem temporal: algo deve ser feito antes de outra ação, isto é, recordar previamente fatos para que o discurso seja compreendido.
Assim, o primeiro caso é adversativo (contrariedade) e o segundo, temporal (tempo), o que justifica a escolha da alternativa A.
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