Questão FC505859
Texto I Maria-Nova ouvia a história que Bondade contava e, por mais que quisesse conter a emoção, não conseguia. Hora houve em que ele percebeu e se calou um pouco. Calou-se também
Semântica
IBFC · 2022
Texto I
Maria-Nova ouvia a história que Bondade contava e, por mais que quisesse conter a emoção, não conseguia. Hora houve em que ele percebeu e se calou um pouco. Calou-se também com um nó na garganta, pois sabido é que Bondade vivia intensamente cada história que narrava, e Maria-Nova, cada história que escutava. Ambos estão com o peito sangrando. Ele sente remorsos de já ter contato tantas tristezas para Maria-Nova. Mas a menina é do tipo que gosta de pôr o dedo na ferida, não na ferida alheia, mas naquela que ela traz no peito. Na ferida que ela herdou de Mãe Joana, de Maria-Velha, de Tio Totó, do Louco Luisão da Serra, da avó mansa, que tinha todo o lado direito do corpo esquecido, do bisavô que tinha visto os sinhôs venderem Ayaba, a rainha. Maria-Nova, talvez, tivesse o banzo1 no peito. Saudades de um tempo, de um lugar, de uma vida que ela nunca vivera. Entretanto o que doía mesmo em Maria-Nova era ver que tudo se repetia, um pouco diferente, mas, no fundo, a miséria era a mesma. O seu povo, os oprimidos, os miseráveis; em todas as histórias, quase nunca eram os vencedores, e sim, quase sempre, os vencidos. A ferida dos do lado de cá sempre ardia, doía e sangrava muito.
(EVARISTO, Conceição. Becos da Memória. Rio de Janeiro: Pallas, 2017)
1 para os escravizados, era como se chamava o sentimento de melancolia em relação à terra natal e de aversão à privação da liberdade
Em “por mais que quisesse conter a emoção, não conseguia.”, a construção destacada, possui um valor semântico de:
- causa.
- consequência.
- proporcionalidade.
- concessão.
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Gabarito
D
Comentário do professor
Concessão: a locução "por mais que" introduz uma oração subordinada concessiva, sinalizando que o fato expresso nela apresenta uma objeção ou limite que, no entanto, não impede o acontecimento da oração principal.
No enunciado, "por mais que quisesse conter a emoção, não conseguia", a oração concessiva mostra a tentativa ou desejo contrário (contê-la), enquanto a oração principal afirma o resultado efetivo (não conseguir). A forma verbal quisesse no subjuntivo reforça o caráter hipotético ou contrário à realidade esperado pela concessão.
Assim, a construção expressa que, apesar da vontade ou do esforço, o resultado oposto ocorreu, o que é a marca semântica da concessão.
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