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Questão FC505942

Texto Sonhos, estranhos sonhos Apesar de ser corajoso vivendo na comunidade, quando eu chegava à cidade me tornava um covarde. Ali era tudo muito estranho para mim. Havia coisas qu

Sintaxe

IBFC · 2024

Texto

Sonhos, estranhos sonhos

 

Apesar de ser corajoso vivendo na comunidade, quando eu chegava à cidade me tornava um covarde. Ali era tudo muito estranho para mim. Havia coisas que eu não compreendia de jeito nenhum. Coisas do tipo: disputar pelo primeiro lugar, seja no estudo, seja no esporte; meninos valentões; mães que agrediam os filhos; escola que castigava quem não obedecia às regras, entre outras coisas. Naquela ocasião, eu não podia ter a presença constante dos meus pais junto de mim, porque era a política da época que o Estado brasileiro tomasse conta de seus “índios”. Isso consistia, entre outras coisas, em manter os pais longe da escola. Hoje sei que aquilo servia para nos isolar dos que falavam a mesma língua e nos obrigar a falar e aprender somente em português.

 

Eu ficava muito triste e solitário na escola. Não tinha amigos da mesma comunidade para conversar, não tinha muito o que fazer com aquilo que eu sabia da aldeia e não podia criar muitas coisas porque o meu tempo era bem regrado pelos muitos afazeres escolares. E, claro, tinha também meus colegas, que nunca me deixavam em paz. O tempo todo estavam tirando sarro da minha cara. Bastava me verem e logo já vinha aquela enxurrada de impropérios contra mim. Parece que eles queriam mesmo que eu nunca esquecesse quem eu era e de onde eu vinha. Era o tempo todo me chamando de índio, selvagem, atrasado, sujo, fedorento... Eu, covarde que era, baixava minha cabeça e chorava baixinho.

 

Eu sempre tive, por conta disso, acho, uns sonhos bem estranhos. Neles quase sempre eu me encontrava sozinho numa grande cidade, perdido e chorando. Algumas vezes, sonhei que estava ensanguentado. O sangue escorria em meu rosto e descia até meus pés, mas eu não sabia de onde vinha, porque não estava ferido. Sonhava que estava dentro de um buraco apenas com a cabeça de fora e que meus colegas ficavam atirando palavras em cima de mim. Eram palavras mesmo. Não palavras da boca, mas objetos que eram palavras. Essas palavras que tanto me assombravam. [...]

(MUNDUKURU, Daniel. Memórias de índio: uma quase autobiografia. Porto Alegre: Edelbra, 2016, p. 65-66)

 

No período “Eu, covarde que era, baixava minha cabeça e chorava baixinho”, as vírgulas foram empregadas para:

  1. indicar uma expressão adverbial deslocada.
  2. isolar uma oração adjetiva explicativa.
  3. marcar a presença de um vocativo.
  4. estruturar uma sequência enumerativa.
  5. sinalizar a presença de uma oração adversativa.
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Gabarito

B

Comentário do professor

Na frase “Eu, covarde que era, baixava minha cabeça e chorava baixinho” as vírgulas isolam uma oração subordinada adjetiva explicativa.

É oração porque contém verbo (era); é subordinada porque depende da oração principal para completar o sentido; é adjetiva porque caracteriza o referente (Eu), equivalendo a um adjetivo; e é explicativa porque acrescenta uma informação acessória sobre o sujeito, não necessária para identificá‑lo. As vírgulas sinalizam essa função explicativa, destacando a oração como um comentário adicional sobre o pronome.

Portanto, a pontuação correta marca a oração isolada que explica a condição do narrador, justificando a escolha da alternativa indicada.

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