FC ConcursosFC Concursos

Questão FC506060

Texto I “Explicar, a mim, como é Alejandra, Bruno ponderou, como é seu rosto, como são as dobras de sua boca.” E pensou que eram justamente essas dobras desdenhosas e um certo bril

Pontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc)

IBFC · 2022

Texto I

 

“Explicar, a mim, como é Alejandra, Bruno ponderou, como é seu rosto, como são as dobras de sua boca.” E pensou que eram justamente essas dobras desdenhosas e um certo brilho tenebroso nos olhos que diferenciavam mais que tudo o rosto de Alejandra do rosto de Georgina, a quem ele amara de verdade. Pois, agora compreendia, a ela é que amara realmente, e quando imaginou estar apaixonado por Alejandra era a mãe de Alejandra que buscava, como esses monges medievais que tentavam decifrar o texto primitivo debaixo das restaurações, debaixo das palavras apagadas e substituídas. E essa insensatez fora a razão de tristes mal-entendidos com Alejandra, tendo às vezes a mesma sensação de quem, após muitíssimos anos de ausência, chega à casa da infância e, ao tentar de noite abrir uma porta, depara com uma parede. Claro que seu rosto era quase o mesmo de Georgina: o mesmo cabelo preto com reflexos avermelhados, os olhos cinza-esverdeados, a boca idêntica e grande, as mesmas faces mongólicas, a mesma pele morena e pálida. Mas o “quase” era atroz, e mais ainda por ser tão sutil e imperceptível, pois assim o equívoco era mais profundo e doloroso. Os ossos e a carne – pensava – não bastam para formar um rosto, e é por isso que ele é infinitamente menos físico do que o corpo: é determinado pelo olhar, pelo ríctus da boca, pelas rugas, por todo esse conjunto de atributos sutis com que a alma se revela por meio da carne. Razão pela qual, no momento exato em que alguém morre, seu corpo se transforma abruptamente numa coisa diferente, tão diferente a ponto de se poder dizer “não parece a mesma pessoa”, apesar de ter os mesmos ossos e a mesma matéria de um segundo antes, um segundo antes desse misterioso instante em que a alma se retira do corpo e este fica tão morto como uma casa da qual se retiram para sempre os seres que moram nela, e, sobretudo, que sofreram e se amaram nela.

 

(SABATO, Ernesto. Sobre heróis e tumbas. São Paulo: Planeta De Agostini, 2003, p.22-23)

 

Em “Explicar, a mim, como é Alejandra, Bruno ponderou, como é seu rosto, como são as dobras de sua boca.”, ao considerar a estrutura sintática e o emprego das vírgulas, é correto afirmar que:

  1. as quatro últimas vírgulas caracterizam a construção de uma enumeração que diminui o ritmo do texto.
  2. “a mim” explicita redundância no texto, o que justifica seu emprego entre vírgulas denotando seu papel acessório.
  3. a oração intercalada “Bruno ponderou” cumpre papel acessório e revela a intervenção do próprio personagem.
  4. a expressão “a mim”, entre vírgulas, é um complemento verbal realçado por sua disposição no período.
  5. as construções introduzidas pela conjunção “como” aproximam-se semanticamente, mas exercem funções sintáticas distintas.
Mostrar resposta e comentário

Gabarito

D

Comentário do professor

“a mim” funciona sintaticamente como objeto indireto do verbo explicar, isto é, um complemento verbal introduzido pela preposição a e necessário para completar o sentido de quem recebe a explicação.

As vírgulas que o isolam decorrem da sua inversão para posição enfática: o termo foi deslocado da ordem canônica (verbo + complemento) para o início da sequência, ficando destacado por vírgulas. Esse destaque é apenas prosódico/estilístico; não altera sua função sintática.

Portanto, embora isolado por vírgulas, “a mim” permanece complemento verbal, realçado pela posição e pontuação para evidenciar o destinatário da ação.

Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em

Continue aprendendo