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Questão FC506113

– Não tem mais aguardente?

Regência

IBFC · 2024

Leia o texto abaixo e responda as questões. Texto – Detalhes:

 

O velho porteiro do palácio chega em casa trêmulo. Como sempre que tem baile no palácio, sua mulher o espera com café da manhã reforçado. Mas dessa vez, ele nem olha para a xícara fumegante, o bolo, a manteiga, as geleias. Vai direto à aguardente. Atira-se na sua poltrona perto do fogão e toma um longo gole da bebida, pelo gargalo.

 

– Helmuth, o que foi?

 

– Espera Helga. Deixa eu me controlar primeiro.

 

Toma outro gole de aguardente.

 

– Conta, homem! O que houve com você? Aconteceu alguma coisa no baile?

 

– Co-começou tudo bem. As pessoas chegando, todo mundo de gala, todos com convite, tudo direitinho. Sempre tem, é claro, o filhinho-de-papai sem convite que quer me levar na conversa. De repente, chega a maior carruagem que eu já vi. Enorme. E toda de ouro. Puxada por três parelhas de cavalos brancos. Cavalões! Elefantes! Dentro da carruagem salta uma dona. Sozinha. Uma beleza. Eu me preparo para barrar a entrada dela porque mulher desacompanhada não entra em baile de palácio. Mas essa dona é tão bonita, tão, sei lá, radiante, que eu não digo nada e deixo ela entrar.

 

– Bom, Helmuth. Até aí...

 

– Espera. O baile continua. Tudo normal. Às vezes rola um bêbado pela escadaria, mas nada de mais. E então bate meia noite. Há um rebuliço na porta do palácio. Olho para trás e vejo uma mulher maltrapilha que desce pela escadaria, correndo. Ela perde um sapato. E o príncipe atrás dela.

 

– O príncipe?

 

– Ele mesmo. E gritando para mim segurar a esfarrapada. “Segura”! “Segura”! Me preparo para segurá-la quando ouço uma espécie de ‘vum’ acompanhado de um clarão. Me viro e... - E o quê, meu Deus? O porteiro esvazia a garrafa com um último gole.

 

– Você não vai acreditar. – Conta!

 

– A tal carruagem. A de ouro. Tinha se transformado numa abóbora.

 

– Numa o quê?!

 

– Eu disse que você não ia acreditar.

 

– Uma abóbora?

 

– E os cavalos em ratos. – Helmuth...

 

– Não tem mais aguardente?

 

– Acho que você já bebeu demais por hoje.

 

– Juro que não bebi nada!

 

– Esse trabalho no palácio está acabando com você, Helmuth. Pede para ser transferido para o almoxarifado.

 

(Luís Fernando Veríssimo – in “Domingo”, revista do Jornal do Brasil, nº. 117).

 

“(...) Vai direto à aguardente.”, em à (aguardente), tem-se o acento indicador de crase. Assinale a alternativa em que está correto o uso do referido acento.

  1. ‘Ela fala a verdade, às vezes.’
  2. ‘E às duas horas que ficamos lá, pareceram uma eternidade.’
  3. ‘Chegamos após às doze horas previstas pela viação.’
  4. ‘Deram a notícia à Jorge.’
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Gabarito

A

Comentário do professor

‘Ela fala a verdade, às vezes.’ Está correta porque às é a contração da preposição a com o artigo definido plural as: a + as vezes = às vezes. Aqui temos uma locução adverbial de tempo formada por substantivo feminino plural, o que exige a preposição e, portanto, a marcação da crase.

Regra prática: quando a expressão for uma locução adverbial feminina (de tempo, modo, lugar etc.), marca-se crase. Exemplos análogos: às pressas, às cegas. Assim, em Ela fala a verdade, às vezes, o acento grave é exigido para indicar a fusão a + as.

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