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Questão FC506157

- Mas tem ali o retrato de um candidato dependurado na parede, que história é essa?

Regência

IBFC · 2022

Texto

 

Conversinha mineira

(Fernando Sabino)

 

- É bom mesmo o cafezinho daqui, meu amigo?

- Sei dizer não senhor: não tomo café.

- Você é dono do café, não sabe dizer?

- Ninguém tem reclamado dele não senhor.

- Então me dá café com leite, pão e manteiga.

- Café com leite só se for sem leite.

- Não tem leite?

- Hoje, não senhor.

- Por que hoje não?

- Porque hoje o leiteiro não veio.

- Ontem ele veio?

- Ontem não.

- Quando é que ele vem?

- Tem dia certo não senhor. Às vezes vem, às vezes não vem. Só que no dia que devia vir em geral não vem.

- Mas ali fora está escrito “Leiteria”!

- Ah, isso está, sim senhor.

- Quando é que tem leite?

- Quando o leiteiro vem.

- Tem ali um sujeito comendo coalhada. É feita de quê?

- O quê: coalhada? Então o senhor não sabe de que é feita a coalhada?

- Está bem, você ganhou. Me traz um café com leite sem leite. Escuta uma coisa: como é que vai indo a política aqui na sua cidade?

- Sei dizer não senhor: eu não sou daqui.

- E há quanto tempo o senhor mora aqui?

- Vai para uns quinze anos. Isto é, não posso agarantir com certeza: um pouco mais, um pouco menos.

- Já dava para saber como vai indo a situação, não acha?

- Ah, o senhor fala da situação? Dizem que vai bem.

- Para que Partido?

- Para todos os Partidos, parece.

- Eu gostaria de saber quem é que vai ganhar a eleição aqui.

- Eu também gostaria. Uns falam que é um, outros falam que outro. Nessa mexida...

- E o Prefeito?

- Que é que tem o Prefeito?

- Que tal o Prefeito daqui?

- O Prefeito? É tal e qual eles falam dele.

- Que é que falam dele?

- Dele? Uai, esse trem todo que falam de tudo quanto é Prefeito.

- Você, certamente, já tem candidato.

- Quem, eu? Estou esperando as plataformas.

- Mas tem ali o retrato de um candidato dependurado na parede, que história é essa?

- Aonde, ali? Uê, gente: penduraram isso aí...

 

Observe o uso de crase no excerto a seguir e assinale a alternativa que o justifique.

“- Tem dia certo não senhor. Às vezes vem, às vezes não”.

I. Recebe o acento grave o “a” inicial das locuções adverbiais (à noite, à tarde, à beça, à revelia, à deriva, à farta, à vista, à primeira vista, à hora certa, à esquerda, à direita, à toa, à espanhola, à milanesa, à oriental, à ocidental, às vezes, às escondidas, às avessas, às claras, às pressas, à vontade, às ocultas etc.). A crase é formada por palavras femininas.

 

II. Recebe o acento grave o “a” inicial das locuções prepositivas (à custa de, à força de, à beira de, à espera de, à vista de, à guisa de, à semelhança de, à frente de, às vezes, à razão de, à cata de, à roda de, à mercê de, à base de, à moda de, à maneira de etc.). A crase é formada por palavras masculinas.

 

III. Recebe o acento grave o “a” inicial das locuções conjuntivas (à medida que, à proporção que, às vezes). A crase é formada por palavras neutras.

 

Estão corretas as afirmativas:

  1. I apenas.
  2. II apenas.
  3. III apenas.
  4. II e III apenas.
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Gabarito

A

Comentário do professor

Crase indica a contração da preposição a com o artigo definido feminino a/as. Em locuções formadas por palavras femininas, essa contração ocorre naturalmente, por se tratar de expressão que exige preposição e admite artigo.

No caso de às vezes, trata-se de uma locução adverbial de tempo construída sobre o substantivo feminino plural vezes, que admite o artigo as. Assim, há a preposição a exigida pela regência do verbo e o artigo as que acompanha o substantivo, resultando em \(a\) + \(as\) = \(às\).

Portanto, a justificativa correta é a que reconhece a ocorrência de crase em locuções adverbiais formadas por elementos femininos, motivo pelo qual a afirmativa I é a adequada ao trecho analisado.

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