FC ConcursosFC Concursos

Questão FC506171

– Não haverá mais barulho, esteja tranquilo. Agora, quanto ao revólver... Quer vender?

Concordância (Verbal e Nominal)

IBFC · 2024

Texto - “Negócio de Ocasião”. (por Fernando Sabino)

 

Quando mandou colocar mármore no chão de seu apartamento, o vizinho de baixo veio reclamar: oito horas da manhã os operários começavam a quebrar mármore mesmo em cima de sua cabeça. Durma-se com um barulho desses!

 

– Está bem – concordou ele, acalmando o vizinho: - Vou mandar começar mais tarde.

 

Mandou que os operários só começassem a trabalhar a partir das nove horas. Dois dias depois tornava o vizinho:

 

– Assim não é possível. Já reclamei, o senhor prometeu, e o barulho continua!

 

– Mas é só por uns dias – argumentou ele: - o senhor vai ter paciência ...

 

E mandou que os trabalhos só se iniciassem a partir das dez horas. Com isso, pensava haver contentado o vizinho. Para surpresa sua, todavia, o homem voltou ainda para protestar, e desta vez furibundo, armado de revólver:

 

– Ou o senhor para com esse barulho ou faço um estrago louco.

 

Olhou espantado para a arma e, cordato, convidou-o a entrar:

 

– Não precisa se exaltar, que diabo. Vamos resolver a coisa como gente civilizada. Eu disse que era só por uns dias... Se o senhor quiser que eu pare, eu paro. Cuidado com esse negócio, costuma disparar. Qual é o calibre?

 

– Trinta e dois.

– Prefiro trinta e oito. Mas esse parece ser muito bom... Que marca?

 

– Smith-Wesson.

 

– Ah! Então deve ser muito bom. Cabo de madrepérola... Quanto o senhor pagou por ele?

 

– Cinco mil cruzeiros.

 

– Não foi caro. Sempre tive vontade de ter um revólver desses. Quem sabe o senhor me venderia?

 

– Não vim aqui para vender revólver – explodiu o outro – mas para te avisar que esse barulho...

 

– Não haverá mais barulho, esteja tranquilo. Agora, quanto ao revólver... Quer vender?

 

– O senhor está brincando...

 

Não estou não: pela vida de minha mãezinha. Quer saber de uma coisa? Dou dez mil por ele. Sempre tive vontade... Vamos, aceite! Dez mil, pago na hora.

 

O homem começou a titubear. Olhou o revólver, pensativo: dez mil era um bom preço. Já pensava mesmo em vendê-lo... Olhou o dono da casa, tornou a olhar o revólver:

 

– Toma, é seu – decidiu-se.

 

Antes de entrar na posse da arma, o comprador foi lá dentro, trouxe dez abobrinhas e estendeu-as ao vizinho. Depois, empurrou o revólver e chegou-lhe aos peitos:

 

– Bem, agora ponha-se daqui pra fora. E fique sabendo que eu faço o barulho que quiser e quando quiser, entendeu? Venha aqui outra vez reclamar e vai ver quem é que acaba fazendo um estrago louco.

 

Fernando Sabino. A Mulher do Vizinho. 2ª.ed. RJ, Ed do Autor, 1962 p.186.

 

Assinale a única alternativa em que a concordância verbal aparece de maneira inadequada:

  1. “O vizinho de baixo acabou concordando em vender a arma.”
  2. “E mandou que os trabalhos só se iniciasse a partir das dez horas.”
  3. “O barulho dos operários o impedia de dormir até mais tarde.”
  4. “O vizinho de baixo ficou pensativo porque o preço era bom.”
Mostrar resposta e comentário

Gabarito

B

Comentário do professor

A frase apresenta erro de concordância verbal porque o verbo da oração subordinada não concorda com seu sujeito. Em "E mandou que os trabalhos só se iniciasse a partir das dez horas", o sujeito dessa oração é os trabalhos (plural), portanto o verbo deve vir no plural.

Além disso, a locução "mandou que" exige o pretérito imperfeito do subjuntivo na oração subordinada consecutiva de ordem ou pedido. A forma correta, obedecendo à concordância e ao modo, é: "E mandou que os trabalhos só se iniciassem a partir das dez horas."

Trata‑se, portanto, de um solecismo pela discordância entre sujeito e verbo na oração subordinada.

Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em

Continue aprendendo