Questão FC506243
- Não tem figura?
Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
IBFC · 2025
Analise o texto a seguir para responder a questão.
Lenine
(Manuel Bandeira)
Homens há que levam uma vida obscura e só depois da morte se vai tecendo a lenda em que se lhes perfaz a glorificação. A outros, ao contrário, a lenda os anuncia. Surge primeiro um nome, até então de todo desconhecido, e em torno dele as imaginações trabalham, as informações contraditórias pululam, e à mercê desse lento processo de cristalização uma estranha figura vai avultando extra-real e muitas vezes com proporções até nitidamente inumanas.
Lenine era para mim um desses nomes. E no entanto, preciso dizê-lo, Lenine foi uma das grandes decepções de minha vida. Assim acontece sempre quando a imaginação superexcitada longamente se encontra de repente face a face com a realidade no cotidiano das coisas.
Lenine!... Lembram-se como essas três sílabas começaram a aparecer no serviço telegráfico da guerra? No atordoamento das derrotas russas o nome se insinuava misteriosamente como de um habilíssimo espião a soldo de agentes alemães e servindo contra a sua própria pátria. Lenine era isto. Lenine era aquilo. Lenine era agente alemão?
O nome por si só vivia de uma vida intensa. Dir-se-ia criação verbal de um grande poeta, um desses grandes artistas que guardam toda a força mesmo sob os gestos de maior carinho. [...]
Quando, porém, chegou a hora de maiores intimidades intelectuais, Lenine se mostrou já imbuído do que há de mais odioso no espírito pequeno-burguês: a preocupação do ganho, a cobiça dos bens materiais, o gozo e delícia da propriedade.
Se me encontrava na rua, pedia tostão. Se me via à janela, entrava a pedinchar quanto deparava em minha sala: - Me dá um livro! aquele! - Aquele é em francês, você não entende.
- Então aquele!
- Aquele é em inglês.
- Não tem figura?
- Não tem figura.
- Deixe ver! [...]
(ANDRADE, Carlos Drummond de et al. Elenco de cronistas modernos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995)
A coesão referencial é aquela em que um componente da superfície do texto faz remissão a outros explícitos ou inferíveis. Nesse sentido, assinale a alternativa em que se destaca, do primeiro parágrafo, um exemplo desse tipo de coesão.
- “e só depois da morte se vai tecendo a lenda”.
- “A outros, ao contrário, a lenda os anuncia.”.
- “Surge primeiro um nome, até então de todo desconhecido”.
- “em torno dele as imaginações trabalham”.
- “vai avultando extra-real e muitas vezes”.
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Gabarito
D
Comentário do professor
“dele” em “em torno dele as imaginações trabalham” retoma diretamente o substantivo “um nome” mencionado na oração anterior, funcionando como exemplo claro de coesão referencial.
Coesão referencial ocorre quando um elemento do texto remete a outro já expresso ou inferível. Aqui a palavra dele estabelece essa conexão, evitando repetição do termo e ligando as ideias.
Gramaticalmente, dele é um pronome preposicionado (tônico) que realiza referência anafórica, isto é, aponta para um antecedente que veio antes no texto.
Essa retomada torna o trecho coeso: além de manter a fluidez, esclarece que são as imaginações em torno daquele nome que trabalham, consolidando a unidade do enunciado.
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