Questão FC506266
Qual dos dois é o vilão hoje?
Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
IBFC · 2022
Texto
Faroeste
Naquele tempo o mocinho era bom.
Puro do cavalo branco até o chapelão imaculado.
A camisa limpa, com estrela de xerife. Luvas de couro, tímido e olho baixo. Namorando a mocinha, cisca nas pedras e espirra estrelinha com a espora da botina.
Nunca despenteia o cabelo nas brigas. Defende órfão e viúva. Com os brutos, implacável porém justo.
Frequenta o boteco pra chatear os bandidos.
Bebe um trago e disfarça a careta. Atira só em legítima defesa. O mocinho é sempre mocinho, nunca brinca de bandido.
Ah, o vilão todo de preto, duas pistolas no cinto prateado e um punhal (escondido) na bota – o segundo mais rápido do oeste. Bigodinho fino, risadinha cínica. Bebe, trapaceia no jogo. Cospe no chão. Mata pelas costas.
Covarde, patético, chora na cadeia. E morre, bem feito!, na forca.
Qual dos dois é o vilão hoje?
Se um quer roubar o ouro da mina do pai da mocinha, o outro também.
Sem piscar, um troca a mocinha pelo cavalo do outro.
Os punhos nus eram a arma do galã. Hoje briga sujo. Inimigo vencido, a cara no pó? Chuta de letra o nariz até esguichar sangue.
Costeleta e bigodinho ele também. Sem modos, entra de chapelão na casa do juiz. Corteja a heroína, já viu, aparando as unhas? Pífio jogador de pôquer, o toque na orelha esquerda significa trinca de sete.
A cada estalido na sombra já tem o dedo no gatilho – seu lema é atire primeiro e pergunte depois. Você por acaso fecha o olho do bandido que matou? Nem ele.
E a mocinha, de cachinho loiro e tudo, que vergonha!
Começa que moça direita nunca foi. Cantora fuleira de cabaré, gira a valsa do amor nos braços de um e de outro.
Por interesse, casa com o chefão do bando. Casa com o pai do mocinho. Até com o mocinho ela casa.
Deixa estar, guri não é trouxa. Torce pelo bandido.
(TREVISAN, Dalton. O beijo na nuca. Rio de Janeiro: Record, 2014. P.66-67)
No parágrafo, destaca-se a reiteração do verbo “casa”. Tal repetição não prejudica a coesão, ao contrário, torna-se um recurso expressivo já que contribui para:
- propor uma crítica à ideia de casamento como instituição.
- apontar que tanto vilões, quanto mocinhos podem casar.
- representar a possibilidade da ocorrência de vários casamentos.
- reforçar um comportamento atribuído à mocinha no texto.
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Gabarito
D
Comentário do professor
Reiteração do verbo casa funciona como um recurso de ênfase: ao repetir o mesmo verbo em sequência, o enunciador destaca e fixa na memória do leitor a ação atribuída à mocinha.
Essa repetição não é neutra; atua como uma marca estilística que caracteriza o sujeito. Ao listar as pessoas com quem ela casa, o texto sugere falta de critério e motivação interesseira, transformando o ato matrimonial em traço definidor do seu comportamento.
Do ponto de vista discursivo, a repetição cria ritmo e acumulação, produzindo efeito de caricatura e ironia: a multiplicidade de casamentos realça a ideia de volubilidade afetiva e instrumentalização das uniões.
Portanto, a repetição é um recurso expressivo que reforça a atribuição de comportamento à personagem, preservando a coesão e intensificando sua caracterização.
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