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Questão FC506267

Qual dos dois é o vilão hoje?

Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)

IBFC · 2022

Texto

 

Faroeste

 

Naquele tempo o mocinho era bom.

 

Puro do cavalo branco até o chapelão imaculado.

 

A camisa limpa, com estrela de xerife. Luvas de couro, tímido e olho baixo. Namorando a mocinha, cisca nas pedras e espirra estrelinha com a espora da botina.

 

Nunca despenteia o cabelo nas brigas. Defende órfão e viúva. Com os brutos, implacável porém justo.

 

Frequenta o boteco pra chatear os bandidos.

 

Bebe um trago e disfarça a careta. Atira só em legítima defesa. O mocinho é sempre mocinho, nunca brinca de bandido.

 

Ah, o vilão todo de preto, duas pistolas no cinto prateado e um punhal (escondido) na bota – o segundo mais rápido do oeste. Bigodinho fino, risadinha cínica. Bebe, trapaceia no jogo. Cospe no chão. Mata pelas costas.

 

Covarde, patético, chora na cadeia. E morre, bem feito!, na forca.

 

Qual dos dois é o vilão hoje?

 

Se um quer roubar o ouro da mina do pai da mocinha, o outro também.

 

Sem piscar, um troca a mocinha pelo cavalo do outro.

 

Os punhos nus eram a arma do galã. Hoje briga sujo. Inimigo vencido, a cara no pó? Chuta de letra o nariz até esguichar sangue.

 

Costeleta e bigodinho ele também. Sem modos, entra de chapelão na casa do juiz. Corteja a heroína, já viu, aparando as unhas? Pífio jogador de pôquer, o toque na orelha esquerda significa trinca de sete.

 

A cada estalido na sombra já tem o dedo no gatilho – seu lema é atire primeiro e pergunte depois. Você por acaso fecha o olho do bandido que matou? Nem ele.

 

E a mocinha, de cachinho loiro e tudo, que vergonha!

 

Começa que moça direita nunca foi. Cantora fuleira de cabaré, gira a valsa do amor nos braços de um e de outro.

 

Por interesse, casa com o chefão do bando. Casa com o pai do mocinho. Até com o mocinho ela casa.

 

Deixa estar, guri não é trouxa. Torce pelo bandido.

 

(TREVISAN, Dalton. O beijo na nuca. Rio de Janeiro: Record, 2014. P.66-67)

 

A análise morfológica e semântica do título “Faroeste” permite concluir seu caráter:

  1. adverbial, indicando a localização precisa de onde se desenrola uma sequência de ações.
  2. adjetivo, cumprindo sua função qualificadora de atribuir características a pessoas e aos lugares.
  3. pronominal, substituindo os nomes dos lugares que apresentam pessoas com determinado comportamento.
  4. substantivo, nomeando uma referência espacial, bem como um conjunto de comportamentos.
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Gabarito

D

Comentário do professor

Substantivo. Morfologicamente, "Faroeste" funciona como nome: admite artigo ("o faroeste"), pluralização ("faroestes") e atua como núcleo do sintagma nominal. Como título, cumpre a função típica de um nome que identifica um referente textual.

Semânticamente, o termo nomeia duas camadas: uma referência espacial ligada ao universo histórico do oeste americano e uma esfera cultural mais ampla que reúne um conjunto de comportamentos e estereótipos (xerife heroico, vilão de preto, cabaré, duelos etc.). Aqui o título opera por metonímia, condensando cenário e práticas narrativas.

Portanto, "Faroeste" é substantivo cujo sentido engloba tanto o lugar evocada na narrativa quanto o repertório de ações e papéis típicos desse gênero.

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