Questão FC506276
- Não tem figura?
Tipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre)
IBFC · 2025
Analise o texto a seguir para responder a questão.
Lenine
(Manuel Bandeira)
Homens há que levam uma vida obscura e só depois da morte se vai tecendo a lenda em que se lhes perfaz a glorificação. A outros, ao contrário, a lenda os anuncia. Surge primeiro um nome, até então de todo desconhecido, e em torno dele as imaginações trabalham, as informações contraditórias pululam, e à mercê desse lento processo de cristalização uma estranha figura vai avultando extra-real e muitas vezes com proporções até nitidamente inumanas.
Lenine era para mim um desses nomes. E no entanto, preciso dizê-lo, Lenine foi uma das grandes decepções de minha vida. Assim acontece sempre quando a imaginação superexcitada longamente se encontra de repente face a face com a realidade no cotidiano das coisas.
Lenine!... Lembram-se como essas três sílabas começaram a aparecer no serviço telegráfico da guerra? No atordoamento das derrotas russas o nome se insinuava misteriosamente como de um habilíssimo espião a soldo de agentes alemães e servindo contra a sua própria pátria. Lenine era isto. Lenine era aquilo. Lenine era agente alemão?
O nome por si só vivia de uma vida intensa. Dir-se-ia criação verbal de um grande poeta, um desses grandes artistas que guardam toda a força mesmo sob os gestos de maior carinho. [...]
Quando, porém, chegou a hora de maiores intimidades intelectuais, Lenine se mostrou já imbuído do que há de mais odioso no espírito pequeno-burguês: a preocupação do ganho, a cobiça dos bens materiais, o gozo e delícia da propriedade.
Se me encontrava na rua, pedia tostão. Se me via à janela, entrava a pedinchar quanto deparava em minha sala: - Me dá um livro! aquele! - Aquele é em francês, você não entende.
- Então aquele!
- Aquele é em inglês.
- Não tem figura?
- Não tem figura.
- Deixe ver! [...]
(ANDRADE, Carlos Drummond de et al. Elenco de cronistas modernos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995)
O final do texto apresenta a fala dos personagens por meio de um discurso que:
- não apresenta verbos “dicendi”, mas reproduz as matizes da linguagem de cada um.
- embora seja introduzido por travessões, ilustra a essência do discurso indireto.
- mostra as ideias dos personagens por meio dos traços da linguagem do narrador.
- com verbos no presente e no modo imperativo revela as impressões do narrador.
- inviabiliza a identificação dos personagens pela ausência de seus nomes.
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Gabarito
A
Comentário do professor
Verbos dicendi são os verbos que identificam o enunciador (diz, perguntou, respondeu). No trecho final do texto esses verbos estão ausentes: as falas aparecem em sequência sem verbos de elocução.
Essa omissão não implica ausência de oradores. A presença de falas em parágrafos distintos, introduzidas por travessões no original, caracteriza o discurso direto, em que o próprio modo de falar do personagem é apresentado sem mediação do narrador.
Além disso, as réplicas curtas e coloquiais reproduzem as matizes da linguagem de cada interlocutor: pedidos, hesitações e repetição revelam a atitude pedinte e materialista de Lenine e diferenciam sua voz da do narrador.
Portanto, a alternativa está correta: não há verbos dicendi, e as falas preservam as cores e traços próprios da linguagem dos personagens.
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