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Questão FC506288

Nizia Figueira, sua criada (Mário de Andrade) Belazarte me contou: Pois eu acho que tem. Você já sabe que sou cristão... Essas coisas de felicidade e infelicidade não têm significa

Linguagem

IBFC · 2023

Nizia Figueira, sua criada

(Mário de Andrade)

 

Belazarte me contou:

 

Pois eu acho que tem. Você já sabe que sou cristão... Essas coisas de felicidade e infelicidade não têm significado nenhum, si a gente se compara consigo mesmo. Infelicidade é fenômeno de relação, só mesmo a gente olhando pro vizinho é que diz o “atendite et videte”1. Macaco, olhe o seu rabo! isso sim, me parece o cruzamento da filosofia cristã com a precisão de felicidade neste mundo duro. Inda é bom quando a gente inventa a ilusão da vaidade, e em vez de falar que é mais desinfeliz, fala que é mais feliz... Toquei em rabo, e estou lembrando o caso do elefante, você sabe? ... Pois não vê que um dia o elefante topou com uma penuginha de beijaflor caída numa folha, vai, amarrou a penuginha no rabo com uma corda grossa, e principiou todo passeando na serrapilheira2 da jungla3. Uma elefanta mocetona4 que já estava carecendo de senhor pra cumprir seu destino, viu o bicho tão bonito, mexe pra cá, mexe pra lá, ondulando feito onda quieta, e engraçou. Falou assim: “Que elefante mais bonito, porca la miséria!” Pois ele virou pra ela encrespado e: “Dobre a língua, sabe! Elefante não senhora! sou beijaflor.” E foi-se. Eis aí um tipo que ao menos soube criar felicidade com uma ilusão sarapintada. É ridículo, é, mas que diabo! nem toda a gente consegue a grandeza de se tomar como referência de si mesmo. [...]

 

1 Expressão latina , do livro bíblico das Lamentações: “Olhai e vede” (Lm 1,12)

2 camada de folhas secas

3 bosque

4 moça robusta e formosa

 

Conhecido escritor do Modernismo brasileiro, Mário de Andrade, neste fragmento de conto, utiliza alguns desvios em relação à Norma Padrão gerando um uso expressivo da Língua. Indique a alternativa em que não se aponta um exemplo de desse tipo de desvio.

  1. “Você já sabe que sou cristão...”.
  2. “si a gente se compara consigo mesmo”.
  3. “Macaco, olhe o seu rabo! isso sim, me parece”.
  4. “Inda é bom quando a gente inventa”.
  5. “topou com uma penuginha de beijaflor”.
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Gabarito

A

Comentário do professor

“Você já sabe que sou cristão...” está em conformidade com a norma-padrão da língua portuguesa e, por isso, não constitui desvio linguístico.

Sintaticamente, temos uma oração principal Você já sabe seguida de uma oração subordinada completiva nominal introduzida por que (sou cristão). Essa estrutura é correta: a oração subordinada funciona como objeto do verbo saber, e a variação de pessoa gramatical entre as orações é plenamente aceitável nesse tipo de construção.

Do ponto de vista morfológico e ortográfico, todas as formas verbais e nominais estão adequadas e grafadas corretamente. O registro é neutro; apesar de caber em fala coloquial, mantém-se dentro dos padrões formais, sem regionalismos, arcaísmos ou grafias não padronizadas.

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