Questão FC506304
Qual dos dois é o vilão hoje?
Linguagem
IBFC · 2022
Texto
Faroeste
Naquele tempo o mocinho era bom.
Puro do cavalo branco até o chapelão imaculado.
A camisa limpa, com estrela de xerife. Luvas de couro, tímido e olho baixo. Namorando a mocinha, cisca nas pedras e espirra estrelinha com a espora da botina.
Nunca despenteia o cabelo nas brigas. Defende órfão e viúva. Com os brutos, implacável porém justo.
Frequenta o boteco pra chatear os bandidos.
Bebe um trago e disfarça a careta. Atira só em legítima defesa. O mocinho é sempre mocinho, nunca brinca de bandido.
Ah, o vilão todo de preto, duas pistolas no cinto prateado e um punhal (escondido) na bota – o segundo mais rápido do oeste. Bigodinho fino, risadinha cínica. Bebe, trapaceia no jogo. Cospe no chão. Mata pelas costas.
Covarde, patético, chora na cadeia. E morre, bem feito!, na forca.
Qual dos dois é o vilão hoje?
Se um quer roubar o ouro da mina do pai da mocinha, o outro também.
Sem piscar, um troca a mocinha pelo cavalo do outro.
Os punhos nus eram a arma do galã. Hoje briga sujo. Inimigo vencido, a cara no pó? Chuta de letra o nariz até esguichar sangue.
Costeleta e bigodinho ele também. Sem modos, entra de chapelão na casa do juiz. Corteja a heroína, já viu, aparando as unhas? Pífio jogador de pôquer, o toque na orelha esquerda significa trinca de sete.
A cada estalido na sombra já tem o dedo no gatilho – seu lema é atire primeiro e pergunte depois. Você por acaso fecha o olho do bandido que matou? Nem ele.
E a mocinha, de cachinho loiro e tudo, que vergonha!
Começa que moça direita nunca foi. Cantora fuleira de cabaré, gira a valsa do amor nos braços de um e de outro.
Por interesse, casa com o chefão do bando. Casa com o pai do mocinho. Até com o mocinho ela casa.
Deixa estar, guri não é trouxa. Torce pelo bandido.
(TREVISAN, Dalton. O beijo na nuca. Rio de Janeiro: Record, 2014. P.66-67)
Em “Se um quer roubar o ouro da mina do pai da mocinha, o outro também.”, encontra-se a seguinte figura, favorecendo a estrutura do texto:
- anáfora
- zeugma
- polissíndeto
- silepse
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Gabarito
B
Comentário do professor
Zeugma é a omissão, em uma oração, de um termo já expresso anteriormente, geralmente um verbo, quando sua recuperação é imediata e não prejudica a compreensão do enunciado.
No período proposto: “Se um quer roubar o ouro da mina do pai da mocinha, o outro também.” entende‑se que o trecho omitido é [quer roubar o ouro da mina do pai da mocinha]. O verbo e seus complementos foram suprimidos no segundo membro por economia linguística.
Esse recurso evita repetição desnecessária, torna o enunciado mais conciso e contribui para o ritmo do texto, além de conferir naturalidade e coloquialidade à fala narrativa.
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