Questão FC506333
Automóvel: Sociedade Anônima (Paulo Mendes Campos) Se você quiser, compre um carro; é um conforto admirável. Mas não o faça sem conhecimento de causa, a fim de evitar desilusões fu
Vocábulo "Que"
IBFC · 2023
Automóvel: Sociedade Anônima
(Paulo Mendes Campos)
Se você quiser, compre um carro; é um conforto admirável. Mas não o faça sem conhecimento de causa, a fim de evitar desilusões futuras. Saiba que está praticando um gesto essencialmente econômico; não para a sua economia, mas para a economia coletiva. Isso quer dizer que, do ponto de vista comunitário, o automóvel que você adquire não é um ponto de chegada, uma conquista final em sua vida, mas, pelo contrário, um ponto de partida para os outros. Desde que o compre, o carro passa a interessar aos outros, muito mais que a você mesmo.
Com o carro, você está ampliando seriamente a economia de milhares de pessoas. É uma espécie de indústria às avessas, na qual você monta um engenho não para obter lucros, mas para distribuir seu dinheiro para toda classe de pessoas: industriais europeus, biliardários do Texas, empresários brasileiros, comerciantes, operários especializados, proletários, vagabundos, etc.
Já na compra do carro, você contribui para uma infinidade de setores produtivos, que podemos encolher ao máximo nos seguintes itens: a indústria automobilística propriamente dita, localizada no Brasil, mas sem qualquer inibição no que toca à remessa de lucros para o exterior; os vendedores de automóveis; a siderurgia; a petroquímica; as fábricas de pneus e as de artefatos de borracha; as fábricas de plásticos, couros, tintas, etc.; as fábricas de rolamentos e outras autopeças; as fábricas de relógios, rádios, etc.; as indústrias de petróleo [...]
Você já pode ir vendo a gravidade do seu gesto: ao comprar um carro, você entrou na órbita de toda essa gente, até ontem, você estava fora do alcance deles; hoje, seu transporte passou a ser, do ponto de vista econômico, simplesmente transcendental. Você é um homem economicamente importante – para os outros. Seu automóvel é de fato uma sociedade anônima, da qual todos lucram, menos você.
Mas não fica só nisso; você estará ainda girando numa constelação menor, miúda mas nada desprezível: a dos recauchutadores, eletricistas, garagistas, lavadores, olheiros, guardas de trânsito, mecânicos de esquina. Você pode ainda querer um motorista ou participar de alguma das várias modalidades de seguros para automóveis. Em outros termos, você continua entrando pelo cano. No fim deste, há ainda uma outra classe: a dos ladrões, seja organizada em sindicatos, seja a espécie de francopuxadores. [...]
Considere a classificação morfológica do vocábulo “que” em “uma infinidade de setores produtivos, que podemos encolher ao máximo”. Indique a alternativa em que se destaca um “que” com essa mesma classificação.
- “Saiba que está praticando um gesto essencialmente econômico”.
- “Isso quer dizer que, do ponto de vista comunitário”.
- “o automóvel que você adquire não é um ponto de chegada”.
- “Desde que o compre, o carro passa a interessar aos outros”.
- “muito mais que a você mesmo”.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
Na frase “o automóvel que você adquire não é um ponto de chegada”, o que é classificado como pronome relativo. Ele introduz uma oração subordinada adjetiva restritiva, que especifica qual automóvel está em questão, sem vírgulas, portanto essencial para o sentido.
O pronome retoma o antecedente “automóvel” e estabelece a relação entre a oração principal e a subordinada. Um teste simples confirma essa função: pode-se substituir que por o qual (com concordância em gênero e número) e a sentença mantém-se coerente.
Sintaticamente, dentro da subordinada, o que exerce a função de objeto direto do verbo “adquire”, pois volta-se ao termo anterior e completa o sentido verbal. Essa combinação de referência ao antecedente e função sintática é característica do pronome relativo em orações adjetivas restritivas.
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