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Questão FC506344

- Não tem figura?

Interpretação de Textos (Compreensão)

IBFC · 2025

Analise o texto a seguir para responder a questão.

Lenine

(Manuel Bandeira)

 

Homens há que levam uma vida obscura e só depois da morte se vai tecendo a lenda em que se lhes perfaz a glorificação. A outros, ao contrário, a lenda os anuncia. Surge primeiro um nome, até então de todo desconhecido, e em torno dele as imaginações trabalham, as informações contraditórias pululam, e à mercê desse lento processo de cristalização uma estranha figura vai avultando extra-real e muitas vezes com proporções até nitidamente inumanas.

 

Lenine era para mim um desses nomes. E no entanto, preciso dizê-lo, Lenine foi uma das grandes decepções de minha vida. Assim acontece sempre quando a imaginação superexcitada longamente se encontra de repente face a face com a realidade no cotidiano das coisas.

 

Lenine!... Lembram-se como essas três sílabas começaram a aparecer no serviço telegráfico da guerra? No atordoamento das derrotas russas o nome se insinuava misteriosamente como de um habilíssimo espião a soldo de agentes alemães e servindo contra a sua própria pátria. Lenine era isto. Lenine era aquilo. Lenine era agente alemão?

 

O nome por si só vivia de uma vida intensa. Dir-se-ia criação verbal de um grande poeta, um desses grandes artistas que guardam toda a força mesmo sob os gestos de maior carinho. [...]

 

Quando, porém, chegou a hora de maiores intimidades intelectuais, Lenine se mostrou já imbuído do que há de mais odioso no espírito pequeno-burguês: a preocupação do ganho, a cobiça dos bens materiais, o gozo e delícia da propriedade.

 

Se me encontrava na rua, pedia tostão. Se me via à janela, entrava a pedinchar quanto deparava em minha sala: - Me dá um livro! aquele! - Aquele é em francês, você não entende.

- Então aquele!

- Aquele é em inglês.

- Não tem figura?

- Não tem figura.

- Deixe ver! [...]

 

(ANDRADE, Carlos Drummond de et al. Elenco de cronistas modernos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995)

 

A forma verbal “Lembram-se”, no terceiro parágrafo, contribui para a coerência do texto uma vez que deve ser entendida como:

  1. um apelo aos leitores em geral, buscando aproximá-los do episódio.
  2. um pedido direcionado a um interlocutor específico para representar o Lenine.
  3. uma interlocução com sujeitos que teriam partilhado a experiência descrita.
  4. uma ordem ao próprio enunciador estruturada, discursivamente, de forma coletiva.
  5. uma evocação aos militares em geral que venham a ler a descrição apresentada.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Interlocução: a forma verbal Lembram-se convoca destinatários que supostamente viveram o mesmo episódio, estabelecendo uma ligação direta entre narrador e ouvintes.

Ao usar a segunda pessoa do plural, o enunciador pressupõe uma memória compartilhada, o que cria imediata cumplicidade e torna mais verossímil a referência histórica ao surgimento do nome.

Essa estratégia discursiva contribui para a coerência do texto porque insere o relato numa experiência coletiva, alinhando o ponto de vista do narrador com o do público.

Em síntese, Lembram-se funciona como recurso de interlocução com sujeitos que partilharam a experiência descrita, estreitando o vínculo comunicativo e ancorando o enunciado no tempo vivido.

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