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Questão FC506377

Texto Sonhos, estranhos sonhos Apesar de ser corajoso vivendo na comunidade, quando eu chegava à cidade me tornava um covarde. Ali era tudo muito estranho para mim. Havia coisas qu

Interpretação de Textos (Compreensão)

IBFC · 2024

Texto

Sonhos, estranhos sonhos

 

Apesar de ser corajoso vivendo na comunidade, quando eu chegava à cidade me tornava um covarde. Ali era tudo muito estranho para mim. Havia coisas que eu não compreendia de jeito nenhum. Coisas do tipo: disputar pelo primeiro lugar, seja no estudo, seja no esporte; meninos valentões; mães que agrediam os filhos; escola que castigava quem não obedecia às regras, entre outras coisas. Naquela ocasião, eu não podia ter a presença constante dos meus pais junto de mim, porque era a política da época que o Estado brasileiro tomasse conta de seus “índios”. Isso consistia, entre outras coisas, em manter os pais longe da escola. Hoje sei que aquilo servia para nos isolar dos que falavam a mesma língua e nos obrigar a falar e aprender somente em português.

 

Eu ficava muito triste e solitário na escola. Não tinha amigos da mesma comunidade para conversar, não tinha muito o que fazer com aquilo que eu sabia da aldeia e não podia criar muitas coisas porque o meu tempo era bem regrado pelos muitos afazeres escolares. E, claro, tinha também meus colegas, que nunca me deixavam em paz. O tempo todo estavam tirando sarro da minha cara. Bastava me verem e logo já vinha aquela enxurrada de impropérios contra mim. Parece que eles queriam mesmo que eu nunca esquecesse quem eu era e de onde eu vinha. Era o tempo todo me chamando de índio, selvagem, atrasado, sujo, fedorento... Eu, covarde que era, baixava minha cabeça e chorava baixinho.

 

Eu sempre tive, por conta disso, acho, uns sonhos bem estranhos. Neles quase sempre eu me encontrava sozinho numa grande cidade, perdido e chorando. Algumas vezes, sonhei que estava ensanguentado. O sangue escorria em meu rosto e descia até meus pés, mas eu não sabia de onde vinha, porque não estava ferido. Sonhava que estava dentro de um buraco apenas com a cabeça de fora e que meus colegas ficavam atirando palavras em cima de mim. Eram palavras mesmo. Não palavras da boca, mas objetos que eram palavras. Essas palavras que tanto me assombravam. [...]

(MUNDUKURU, Daniel. Memórias de índio: uma quase autobiografia. Porto Alegre: Edelbra, 2016, p. 65-66)

 

De acordo com o texto, segundo a percepção do enunciador, a estranheza dos seus sonhos:

  1. estava relacionada com as suas experiências traumáticas vividas na escola.
  2. devia-se à sua incapacidade de compreender a linguagem dos adultos.
  3. era motivada pelo excesso de coragem que aprendeu em sua comunidade.
  4. era resultado apenas de uma política que mantinha os pais longe da escola.
  5. estava associada à dificuldade de transformar em palavras a experiência do sonho.
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Gabarito

A

Comentário do professor

A alternativa está correta porque o próprio texto estabelece relação entre os episódios vividos na escola e as imagens oníricas. O narrador descreve violência verbal e exclusão: isolamento, apelidos como "índio, selvagem", e o choro diante das agressões, evidenciando experiências traumáticas durante o convívio escolar.

Nos sonhos essas experiências reaparecem sob forma simbólica: o autor vê palavras transformadas em objetos que o ferem, aparece ensanguentado, preso num buraco e atacado verbalmente. Tais imagens funcionam como uma representação onírica das humilhações sofridas.

Em suma, o texto aponta claramente que a estranheza dos sonhos decorre das lembranças e do impacto emocional das agressões sofridas na escola, tornando os pesadelos uma manifestação do trauma vivido.

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