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Questão FC506479

É proibido chorar Em um dos meus textos em que eu falava sobre as dificuldades de lançar meu livro e, ao mesmo tempo, de suportar as dores diárias da sobrevivência, muita gente se

Interpretação de Textos (Compreensão)

IBFC · 2022

É proibido chorar

Em um dos meus textos em que eu falava sobre as dificuldades de lançar meu livro e, ao mesmo tempo, de suportar as dores diárias da sobrevivência, muita gente se identificou com a minha luta.

Nenhuma surpresa nisso, pois desde que nascemos as pedras espreitam nosso caminho.

E a briga pelo leite, o choro, já era o nosso grito de que não aceitaríamos tudo calados.

Infelizmente, alguns deixaram de gritar, por isso, choram até hoje. Não tenho dó de quem sofre, tenho raiva de quem faz sofrer.

Sei de vários que estão na luta e merecem o meu e o nosso respeito: são os quixotes da periferia.

Não só os da periferia geográfica, mas todos os que vivem no centro do esquecimento da humanidade, quer seja artista (?), ou não. Aliás, ser artista neste país não é um privilégio, e sim um castigo, não sei por que tem tanta gente metida a besta só por conta disso.

Tristes figuras. Às vezes, os vejo por aí, os guerreiros, correndo atrás de sonhos e também me vejo neles, sou um deles também, nunca deixei de sonhar, coleciono pedras, mas também semeio quimeras. Vejo e me identifico com a luta, outras vezes, observo-os em silêncio e penso no que será que eles estão pensando, ou como deve ser a casa deles, e, na maioria das vezes, quantos inimigos devem ter. E a única coisa da qual tenho certeza e sei é sobre o que eles comem: poeira e lama. Seja procurando um emprego no centro da cidade, um CD demo debaixo do braço, uns poemas numas folhas de sulfite amareladas e sujas ou um simples bico de pedreiro, boa parte desses guerreiros passa a vida lutando e não se importa com as portas pesadas que cada vez se fecham mais para a nossa gente, que nasce sem as chaves certas e programadas.

A chave de tudo é não desistir, não há outra saída que não a ousadia, a perseverança e a teimosia. [...]

(VAZ, Sérgio. Literatura, pão e poesia: histórias de um povo lindo e inteligente. São Paulo: Global Editora, 2020, p. 39-40)

 

O texto apresenta um posicionamento sobre o trabalho artístico. A esse respeito, é correto afirmar que o autor:

  1. detalha as particularidades dessa categoria exigindo privilégios que cabem só a ela.
  2. parte de uma experiência pessoal para denunciar uma desvalorização coletiva da profissão.
  3. defende que as dificuldades dos artistas contribuem como inspiração para os trabalhos.
  4. aceita as lutas da profissão, com passividade, ciente de que o reconhecimento será obtido.
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Gabarito

B

Comentário do professor

O enunciado aponta que o autor parte de uma experiência pessoal para falar de algo maior. Logo no início ele usa a primeira pessoa ao relatar dificuldades de lançar seu livro e sobreviver, o que situa o texto numa vivência individual.

Em seguida, essa voz singular amplia-se para uma crítica coletiva: o autor nomeia os afetados como “quixotes da periferia” e inclui quem vive no “centro do esquecimento da humanidade”, mostrando que sua experiência vira representação de uma classe inteira.

A denúncia da desvalorização coletiva aparece em trechos em que afirma que ser artista “não é um privilégio, e sim um castigo” e que muitos “comem poeira e lama”, o que evidencia desprezo social e condições precárias.

Portanto, o texto usa o relato pessoal para expor e criticar a condição generalizada de desvalorização profissional dos artistas.

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