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Questão FC506493

Texto Meu reino por um pente (Paulo Mendes Campos) Filhos – diz o poeta – melhor não tê-los. Já o Professor Anibal Machado me confiou gravemente que a vida pode ter muito sofriment

Interpretação de Textos (Compreensão)

IBFC · 2022

Texto

 

Meu reino por um pente (Paulo Mendes Campos)

Filhos – diz o poeta – melhor não tê-los. Já o Professor Anibal Machado me confiou gravemente que a vida pode ter muito sofrimento, o mundo pode não ter explicação alguma, mas, filhos, era melhor tê-los.

A conclusão parece simples, mas não era; Anibal tinha ido às raízes da vida, e de lá arrancara a certeza imperativa de que a procriação é uma verdade animal, uma coisa que não se discute, fora do alcance do radar filosófico. “Eu não sei por que, Paulo, mas fazer filhos é o que há de mais importante.”

Engraçado é que, depois dessa conversa, fui descobrindo devagar a melancólica impostura daquelas palavras corrosivas do final de Memórias Póstumas1: “não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”.

Filhos, melhor tê-los, aliás, o mesmo poeta corrige antiteticamente o pessimismo daquele verso, quando pergunta: mas, se não os temos, como sabê-lo? Resumindo: filhos, melhor não tê-los, mas é de todo indispensável tê-los para sabê-lo; logo, melhor tê-los.

Você vai se rir de mim ao saber que comecei a crônica desse jeito depois de procurar em vão meu bloco de papel. Pois se ria a valer: o desaparecimento de certos objetos tem o dom de conclamar, por um rápido edital, todas as brigadas neuróticas alojadas nas províncias de meu corpo.

Sobretudo instrumentos de trabalho. Vai-se-me por água a baixo o comedimento quando não acho minha caneta, meu lápis-tinta, meu papel, minha cola... Quando isso acontece (sempre) até taquicardia costumo ter; vem-me a tentação de demitir-me do emprego, de ir para uma praia deserta, de voltar para Minas Gerais, renunciar...

Ridículo? Sim, ridículo, mas nada posso fazer. Creio que seria capaz (talvez seja presunção) de aguentar com relativa indiferença uma hecatombe2 que destruísse de vez todos os meus pertences. O que não suporto é a repetição indefinida do desaparecimento desses objetos sem nenhum valor, mas sem os quais, a gente não pode seguir adiante, tem de parar, tem de resolver primeiro. [...]

1 Refere-se ao romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, publicado em 1881.

2 desastre, catástrofe

 

Considere o fragmento abaixo.

 

“a certeza imperativa de que a procriação é uma verdade animal, uma coisa que não se discute, fora do alcance do radar filosófico.” (2º§).

Nessa perspectiva, a procriação passa a ser entendida como uma:

  1. obrigação dotada de sentido filosófico em todas as espécies animais.
  2. ação quase instintiva desprovida de análise crítica e de reflexões.
  3. exigência sistêmica necessária à produção de necessidades materiais.
  4. prática indiscutível, mas afetiva e motivada pela experiência animal.
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Gabarito

B

Comentário do professor

A alternativa está correta porque o texto qualifica a procriação como uma “verdade animal” e algo “fora do alcance do radar filosófico”. Essas imagens indicam que o fenômeno pertence ao plano do instinto, não ao da reflexão.

Ao afirmar que é uma certeza imperativa, o autor reforça a ideia de uma inclinação natural e compulsiva, quase reflexa, que prescinde de exame racional.

O trecho “não se discute” explicita que não há espaço para ponderações críticas ou filosóficas sobre ela. Assim, fica claro tratar-se de uma ação quase instintiva e desprovida de análise crítica.

Portanto, a formulação da alternativa B expressa com fidelidade o sentido do fragmento.

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