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Questão FC506499

Qual dos dois é o vilão hoje?

Interpretação de Textos (Compreensão)

IBFC · 2022

Texto

 

Faroeste

 

Naquele tempo o mocinho era bom.

 

Puro do cavalo branco até o chapelão imaculado.

 

A camisa limpa, com estrela de xerife. Luvas de couro, tímido e olho baixo. Namorando a mocinha, cisca nas pedras e espirra estrelinha com a espora da botina.

 

Nunca despenteia o cabelo nas brigas. Defende órfão e viúva. Com os brutos, implacável porém justo.

 

Frequenta o boteco pra chatear os bandidos.

 

Bebe um trago e disfarça a careta. Atira só em legítima defesa. O mocinho é sempre mocinho, nunca brinca de bandido.

 

Ah, o vilão todo de preto, duas pistolas no cinto prateado e um punhal (escondido) na bota – o segundo mais rápido do oeste. Bigodinho fino, risadinha cínica. Bebe, trapaceia no jogo. Cospe no chão. Mata pelas costas.

 

Covarde, patético, chora na cadeia. E morre, bem feito!, na forca.

 

Qual dos dois é o vilão hoje?

 

Se um quer roubar o ouro da mina do pai da mocinha, o outro também.

 

Sem piscar, um troca a mocinha pelo cavalo do outro.

 

Os punhos nus eram a arma do galã. Hoje briga sujo. Inimigo vencido, a cara no pó? Chuta de letra o nariz até esguichar sangue.

 

Costeleta e bigodinho ele também. Sem modos, entra de chapelão na casa do juiz. Corteja a heroína, já viu, aparando as unhas? Pífio jogador de pôquer, o toque na orelha esquerda significa trinca de sete.

 

A cada estalido na sombra já tem o dedo no gatilho – seu lema é atire primeiro e pergunte depois. Você por acaso fecha o olho do bandido que matou? Nem ele.

 

E a mocinha, de cachinho loiro e tudo, que vergonha!

 

Começa que moça direita nunca foi. Cantora fuleira de cabaré, gira a valsa do amor nos braços de um e de outro.

 

Por interesse, casa com o chefão do bando. Casa com o pai do mocinho. Até com o mocinho ela casa.

 

Deixa estar, guri não é trouxa. Torce pelo bandido.

 

(TREVISAN, Dalton. O beijo na nuca. Rio de Janeiro: Record, 2014. P.66-67)

 

Ao afirmar “Começa que moça direita nunca foi.”, o narrador:

  1. revela a preocupação em defender o comportamento mais livre das moças em geral.
  2. apresenta uma avaliação objetiva mais centrada na faixa etária do que no comportamento.
  3. compartilha com o leitor um significado, comumente, atribuído ao adjetivo na expressão “moça direita”.
  4. revela certa idealização acerca da caracterização do comportamento da moça representada.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

A alternativa correta afirma que o narrador compartilha com o leitor um significado comum do termo moça direita.

Ao dizer "Começa que moça direita nunca foi.", o narrador não explica o termo: ele o usa esperando que o leitor já saiba que moça direita significa mulher de conduta recatada, honrada e respeitável.

Essa frase funciona como rótulo avaliativo que resume o comportamento descrito em seguida: cantora de cabaré, envolve-se com vários homens e casa por interesse. O narrador sinaliza que a personagem foge do padrão socialmente aceito.

Portanto, o enunciado não inventa um novo sentido; ele ativa o sentido culturalmente compartilhado da expressão para caracterizar a personagem de forma direta e julgadora.

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