Questão FC506541
Texto I Maria-Nova ouvia a história que Bondade contava e, por mais que quisesse conter a emoção, não conseguia. Hora houve em que ele percebeu e se calou um pouco. Calou-se também
Interpretação de Textos (Compreensão)
IBFC · 2022
Texto I
Maria-Nova ouvia a história que Bondade contava e, por mais que quisesse conter a emoção, não conseguia. Hora houve em que ele percebeu e se calou um pouco. Calou-se também com um nó na garganta, pois sabido é que Bondade vivia intensamente cada história que narrava, e Maria-Nova, cada história que escutava. Ambos estão com o peito sangrando. Ele sente remorsos de já ter contato tantas tristezas para Maria-Nova. Mas a menina é do tipo que gosta de pôr o dedo na ferida, não na ferida alheia, mas naquela que ela traz no peito. Na ferida que ela herdou de Mãe Joana, de Maria-Velha, de Tio Totó, do Louco Luisão da Serra, da avó mansa, que tinha todo o lado direito do corpo esquecido, do bisavô que tinha visto os sinhôs venderem Ayaba, a rainha. Maria-Nova, talvez, tivesse o banzo1 no peito. Saudades de um tempo, de um lugar, de uma vida que ela nunca vivera. Entretanto o que doía mesmo em Maria-Nova era ver que tudo se repetia, um pouco diferente, mas, no fundo, a miséria era a mesma. O seu povo, os oprimidos, os miseráveis; em todas as histórias, quase nunca eram os vencedores, e sim, quase sempre, os vencidos. A ferida dos do lado de cá sempre ardia, doía e sangrava muito.
(EVARISTO, Conceição. Becos da Memória. Rio de Janeiro: Pallas, 2017)
1 para os escravizados, era como se chamava o sentimento de melancolia em relação à terra natal e de aversão à privação da liberdade
O texto é marcado pelo modo com que Maria-Nova relaciona-se com a dor e a tristeza. Sobre essa relação, é correto afirmar que a personagem busca:
- ignorar o que lhe causa dor a fim de sofrer um pouco menos no presente.
- estar em contato com lembranças tristes e suas ressonâncias no presente.
- revoltar-se contra o que lhe causou dor nomeando os culpados do passado.
- compartilhar, pela escrita, cada uma das dores que a marcaram no passado.
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Gabarito
B
Comentário do professor
Resposta B: a personagem busca estar em contato com lembranças tristes e suas ressonâncias no presente.
O texto mostra Maria-Nova como alguém que revisita a própria dor: ela "gosta de pôr o dedo na ferida, ... naquela que ela traz no peito", o que indica uma atitude ativa de rememoração e sentimento. A frase "o que doía mesmo ... era ver que tudo se repetia" revela que essas lembranças não são passadas isoladas, mas ecoam na realidade atual, produzindo sofrimento contínuo.
Além disso, a nota sobre banzo reforça a ligação entre memória coletiva e melancolia individual. Assim, Maria-Nova não evita a dor; ela a coloca em contato permanente com o presente, vendo nas histórias a repetição da miséria de seu povo.
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