Questão FC506542
Texto I Maria-Nova ouvia a história que Bondade contava e, por mais que quisesse conter a emoção, não conseguia. Hora houve em que ele percebeu e se calou um pouco. Calou-se também
Interpretação de Textos (Compreensão)
IBFC · 2022
Texto I
Maria-Nova ouvia a história que Bondade contava e, por mais que quisesse conter a emoção, não conseguia. Hora houve em que ele percebeu e se calou um pouco. Calou-se também com um nó na garganta, pois sabido é que Bondade vivia intensamente cada história que narrava, e Maria-Nova, cada história que escutava. Ambos estão com o peito sangrando. Ele sente remorsos de já ter contato tantas tristezas para Maria-Nova. Mas a menina é do tipo que gosta de pôr o dedo na ferida, não na ferida alheia, mas naquela que ela traz no peito. Na ferida que ela herdou de Mãe Joana, de Maria-Velha, de Tio Totó, do Louco Luisão da Serra, da avó mansa, que tinha todo o lado direito do corpo esquecido, do bisavô que tinha visto os sinhôs venderem Ayaba, a rainha. Maria-Nova, talvez, tivesse o banzo1 no peito. Saudades de um tempo, de um lugar, de uma vida que ela nunca vivera. Entretanto o que doía mesmo em Maria-Nova era ver que tudo se repetia, um pouco diferente, mas, no fundo, a miséria era a mesma. O seu povo, os oprimidos, os miseráveis; em todas as histórias, quase nunca eram os vencedores, e sim, quase sempre, os vencidos. A ferida dos do lado de cá sempre ardia, doía e sangrava muito.
(EVARISTO, Conceição. Becos da Memória. Rio de Janeiro: Pallas, 2017)
1 para os escravizados, era como se chamava o sentimento de melancolia em relação à terra natal e de aversão à privação da liberdade
O caráter narrativo do texto pode ser percebido pelo modo com que foi estruturado. Quanto a essa estrutura, pode-se afirmar que:
- os personagens Bondade e Maria-Nova apresentam argumentos para a defesa de teses distintas.
- o emprego excessivo de adjetivos permite ao leitor uma maior objetividade na descrição de Maria-Nova.
- o uso de verbos no passado revelam o tom imperativo voltado ao convencimento dos leitores.
- a sequência de ações constrói uma representação acerca do modo pelo qual Bondade e Maria-Nova conversavam.
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Gabarito
D
Comentário do professor
A alternativa assinala corretamente que a sequência de ações é o recurso que constrói a representação do modo como Bondade e Maria-Nova conversavam.
No texto há uma progressão clara: Bondade conta histórias, Maria-Nova escuta e reage emocionalmente, ele percebe e se calou. Esses eventos encadeados mostram não apenas o enredo, mas a dinâmica interacional entre os personagens.
Os verbos no pretérito organizam temporalmente as ações e criam ritmo; as pausas e reações (o nó na garganta, o peito sangrando) tornam concreta a intimidade e a intensidade da conversa.
Assim, é essa sucessão de atos comunicativos que revela o modo de diálogo: partilha de dor, empatia e repetição temática, construindo a cena narrativa apontada na alternativa.
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