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Questão FC506557

Texto I Durante toda a minha vida lidei mal com as demonstrações públicas de sofrimento. Sempre que tive que enfrentá-las, experimentei a inquietante sensação de que meu cérebro bl

Interpretação de Textos (Compreensão)

IBFC · 2022

Texto I

Durante toda a minha vida lidei mal com as demonstrações públicas de sofrimento. Sempre que tive que enfrentá-las, experimentei a inquietante sensação de que meu cérebro bloqueava a sensibilidade, inclusive em relação a mim mesmo. Lembro-me de que, quando minha mãe morreu no hospital, meu pai se jogou sobre seu corpo sem vida e começou a gritar. Sabia que ele a amara durante toda a sua vida de forma muito sincera, e eu mesmo estava tão aturdido pela dor que mal conseguia articular uma palavra, mas, mesmo assim, não pude evitar de sentir que toda a cena era extraordinariamente falsa, e aquilo me perturbou quase mais do que a morte em si. Logo parei de sentir, o quarto me pareceu maior e vazio, e na metade desse espaço pensei que todos nós tínhamos ficado rígidos como estátuas. A única coisa que eu era capaz de me repetir, sem parar, era: “Boa atuação, papai, que boa atuação, papai...”.

Quando vi aquela mulher gritando na praça, tive uma sensação parecida. O cabelo desgrenhado, as duas garotas quase adolescentes, os claros sinais de embriaguez... havia algo tão obsceno nela que nem sequer fiquei escandalizado com minha ausência de compaixão. Eu a olhava da janela do meu escritório como se a distância que nos separasse fosse cósmica. Ela gritava, e seus gritos não faziam sentido. Insultava alternadamente o prefeito e Camilo Ortiz, que deveria estar escutando tudo de sua cela. Eu me sentei e continuei trabalhando. A mulher se calou. Houve um silêncio inesperado e então começou a gritar de novo, mas de forma muito diferente: “Foram as crianças! Foram as crianças!”.

(BARBA, Andrés. República Luminosa. São Paulo: Todavia, 2018, p. 35)

 

O primeiro parágrafo apresenta uma digressão por meio da qual o narrador apresenta um registro de sua memória. Segundo o texto, a mudança brusca de comportamento, registrada em “Logo parei de sentir”, deveu-se:

  1. à dificuldade inata de demonstrar sua tristeza publicamente.
  2. à percepção pessoal de que a postura do pai era falsa.
  3. à revolta pela perda da mãe de forma tão precoce.
  4. ao fato de o pai ter sempre tratado a mulher com falsidade.
  5. ao avanço de sua indiferença em relação à dor do outro.
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Gabarito

B

Comentário do professor

Percepção de falsidade na reação paterna provoca o rompimento emocional do narrador. Ao testemunhar o pai "se jogar sobre seu corpo" e gritar, o narrador reconhece que o gesto lhe pareceu extraordinariamente falso, sensação que o abala mais que a própria morte.

Esse juízo sobre a autenticidade do luto transforma a cena em uma representação teatral na mente do narrador, levando-o ao entorpecimento. A expressão “Logo parei de sentir” registra a consequência imediata: um bloqueio afetivo como defesa contra a incoerência percebida.

O pensamento repetido “Boa atuação, papai, que boa atuação, papai...” confirma que a interpretação cognitiva antecede e explica a mudança emocional. Assim, a razão do apagamento afetivo é a impressão íntima de falsidade na postura do pai.

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