Questão FC506594
– Não haverá mais barulho, esteja tranquilo. Agora, quanto ao revólver... Quer vender?
Tipologia e Gênero Textual
IBFC · 2024
Texto - “Negócio de Ocasião”. (por Fernando Sabino)
Quando mandou colocar mármore no chão de seu apartamento, o vizinho de baixo veio reclamar: oito horas da manhã os operários começavam a quebrar mármore mesmo em cima de sua cabeça. Durma-se com um barulho desses!
– Está bem – concordou ele, acalmando o vizinho: - Vou mandar começar mais tarde.
Mandou que os operários só começassem a trabalhar a partir das nove horas. Dois dias depois tornava o vizinho:
– Assim não é possível. Já reclamei, o senhor prometeu, e o barulho continua!
– Mas é só por uns dias – argumentou ele: - o senhor vai ter paciência ...
E mandou que os trabalhos só se iniciassem a partir das dez horas. Com isso, pensava haver contentado o vizinho. Para surpresa sua, todavia, o homem voltou ainda para protestar, e desta vez furibundo, armado de revólver:
– Ou o senhor para com esse barulho ou faço um estrago louco.
Olhou espantado para a arma e, cordato, convidou-o a entrar:
– Não precisa se exaltar, que diabo. Vamos resolver a coisa como gente civilizada. Eu disse que era só por uns dias... Se o senhor quiser que eu pare, eu paro. Cuidado com esse negócio, costuma disparar. Qual é o calibre?
– Trinta e dois.
– Prefiro trinta e oito. Mas esse parece ser muito bom... Que marca?
– Smith-Wesson.
– Ah! Então deve ser muito bom. Cabo de madrepérola... Quanto o senhor pagou por ele?
– Cinco mil cruzeiros.
– Não foi caro. Sempre tive vontade de ter um revólver desses. Quem sabe o senhor me venderia?
– Não vim aqui para vender revólver – explodiu o outro – mas para te avisar que esse barulho...
– Não haverá mais barulho, esteja tranquilo. Agora, quanto ao revólver... Quer vender?
– O senhor está brincando...
Não estou não: pela vida de minha mãezinha. Quer saber de uma coisa? Dou dez mil por ele. Sempre tive vontade... Vamos, aceite! Dez mil, pago na hora.
O homem começou a titubear. Olhou o revólver, pensativo: dez mil era um bom preço. Já pensava mesmo em vendê-lo... Olhou o dono da casa, tornou a olhar o revólver:
– Toma, é seu – decidiu-se.
Antes de entrar na posse da arma, o comprador foi lá dentro, trouxe dez abobrinhas e estendeu-as ao vizinho. Depois, empurrou o revólver e chegou-lhe aos peitos:
– Bem, agora ponha-se daqui pra fora. E fique sabendo que eu faço o barulho que quiser e quando quiser, entendeu? Venha aqui outra vez reclamar e vai ver quem é que acaba fazendo um estrago louco.
Fernando Sabino. A Mulher do Vizinho. 2ª.ed. RJ, Ed do Autor, 1962 p.186.
“Quando mandou colocar mármore no chão de seu apartamento, o vizinho de baixo veio reclamar: oito horas da manhã os operários começavam a quebrar mármore mesmo em cima de sua cabeça.” - Esse trecho do texto pode ser considerado:
- Uma descrição porque retrata por meio de palavras objetos, pessoas, lugares.
- Uma dissertação já que apresenta argumentos/razões sobre determinado tema.
- Um texto injuntivo já que busca instruir, ensinar e/ou educar o leitor.
- Uma narração porque relata uma sequência de acontecimentos, ações de personagens num determinado tempo e espaço.
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Gabarito
D
Comentário do professor
A frase é classificada como narração porque conta uma ação ocorrida ao longo do tempo, com início e desenvolvimento e com personagens envolvidos.
Percebe-se claramente a presença de personagens (o morador e o vizinho), de um espaço definido (o apartamento) e de um tempo indicado ("oito horas da manhã"). Esses elementos organizam a sequência dos fatos, caracterizando um enredo.
Além disso, há uma progressão de ações: manda colocar mármore, surgem reclamações, muda-se o horário dos operários. A ocorrência de verbos de ação em pretérito e o registro de falas reforçam o caráter narrativo.
Portanto, o trecho relata eventos encadeados no tempo e no espaço, cumprindo a função própria de uma narração.
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