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Questão FC506595

– Não tem mais aguardente?

Tipologia e Gênero Textual

IBFC · 2024

Leia o texto abaixo e responda as questões. Texto – Detalhes:

 

O velho porteiro do palácio chega em casa trêmulo. Como sempre que tem baile no palácio, sua mulher o espera com café da manhã reforçado. Mas dessa vez, ele nem olha para a xícara fumegante, o bolo, a manteiga, as geleias. Vai direto à aguardente. Atira-se na sua poltrona perto do fogão e toma um longo gole da bebida, pelo gargalo.

 

– Helmuth, o que foi?

 

– Espera Helga. Deixa eu me controlar primeiro.

 

Toma outro gole de aguardente.

 

– Conta, homem! O que houve com você? Aconteceu alguma coisa no baile?

 

– Co-começou tudo bem. As pessoas chegando, todo mundo de gala, todos com convite, tudo direitinho. Sempre tem, é claro, o filhinho-de-papai sem convite que quer me levar na conversa. De repente, chega a maior carruagem que eu já vi. Enorme. E toda de ouro. Puxada por três parelhas de cavalos brancos. Cavalões! Elefantes! Dentro da carruagem salta uma dona. Sozinha. Uma beleza. Eu me preparo para barrar a entrada dela porque mulher desacompanhada não entra em baile de palácio. Mas essa dona é tão bonita, tão, sei lá, radiante, que eu não digo nada e deixo ela entrar.

 

– Bom, Helmuth. Até aí...

 

– Espera. O baile continua. Tudo normal. Às vezes rola um bêbado pela escadaria, mas nada de mais. E então bate meia noite. Há um rebuliço na porta do palácio. Olho para trás e vejo uma mulher maltrapilha que desce pela escadaria, correndo. Ela perde um sapato. E o príncipe atrás dela.

 

– O príncipe?

 

– Ele mesmo. E gritando para mim segurar a esfarrapada. “Segura”! “Segura”! Me preparo para segurá-la quando ouço uma espécie de ‘vum’ acompanhado de um clarão. Me viro e... - E o quê, meu Deus? O porteiro esvazia a garrafa com um último gole.

 

– Você não vai acreditar. – Conta!

 

– A tal carruagem. A de ouro. Tinha se transformado numa abóbora.

 

– Numa o quê?!

 

– Eu disse que você não ia acreditar.

 

– Uma abóbora?

 

– E os cavalos em ratos. – Helmuth...

 

– Não tem mais aguardente?

 

– Acho que você já bebeu demais por hoje.

 

– Juro que não bebi nada!

 

– Esse trabalho no palácio está acabando com você, Helmuth. Pede para ser transferido para o almoxarifado.

 

(Luís Fernando Veríssimo – in “Domingo”, revista do Jornal do Brasil, nº. 117).

 

“O baile continua. Tudo normal. Às vezes rola um bêbado pela escadaria, mas nada demais. E então bate meia noite. Há um rebuliço na porta do palácio. Olho para trás e vejo uma mulher maltrapilha que desce pela escadaria, correndo. Ela perde um sapato. E o príncipe atrás dela.” Esse trecho do texto pode ser considerado:

  1. uma descrição porque possui uma tese a ser defendida.
  2. uma dissertação já que apresenta argumentos/razões sobre determinado tema.
  3. um texto injuntivo já que busca instruir, ensinar e ou educar o leitor.
  4. uma narração porque relata uma sequência de acontecimentos reais, imaginários ou fictícios, ou ainda mesclando realidade e imaginação.
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Gabarito

D

Comentário do professor

A alternativa D está correta: o trecho funciona como uma narração.

Isso porque o enunciador relata uma série de eventos encadeados no tempo, com personagens (a mulher, o príncipe, o porteiro), ações (descer, perder o sapato, correr) e um sentido de progressão temporal marcado por expressões como e então bate meia noite.

A presença de verbos que descrevem acontecimentos e o foco em um pequeno enredo — introdução da cena, desenvolvimento do conflito e elemento de clímax — caracterizam o gênero narrativo. Portanto, predomina a função de contar uma história, ainda que breve e com tom coloquial.

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