Questão FC506639
Luto da família Silva (Rubem Braga) A Assistência foi chamada. Veio tinindo. Um homem estava deitado na calçada. Uma poça de sangue. A Assistência voltou vazia. O homem estava mort
Tipologia e Gênero Textual
IBFC · 2023
Luto da família Silva
(Rubem Braga)
A Assistência foi chamada. Veio tinindo. Um homem estava deitado na calçada. Uma poça de sangue. A Assistência voltou vazia. O homem estava morto. O cadáver foi removido para o necrotério. Na seção dos “Fatos Diversos” do Diário de Pernambuco, leio o nome do sujeito: João da Silva. Morava na Rua da Alegria. Morreu de hemoptise.
João da Silva – Neste momento em que seu corpo vai baixar à vala comum, nós, seus amigos e seus irmãos, vimos lhe prestar esta homenagem. Nós somos os joões da silva. Nós somos os populares joões da silva. Moramos em várias casas e em várias cidades. Moramos principalmente na rua. Nós pertencemos, como você, à família Silva. Não é uma família ilustre; nós não temos avós na história. Muitos de nós usamos outros nomes, para disfarce. No fundo, somos os Silva. Quando o Brasil foi colonizado, nós éramos os degredados. Depois fomos os índios. Depois fomos os negros. Depois fomos imigrantes, mestiços. Somos os Silva. Algumas pessoas importantes usaram e usam nosso nome. É por engano. Os Silva somos nós. Não temos a mínima importância. Trabalhamos, andamos pelas ruas e morremos. Saímos da vala comum da vida para o mesmo local da morte. Às vezes, por modéstia, não usamos nosso nome de família. Usamos o sobrenome “de Tal”. A família Silva e a família “de Tal” são a mesma família. E, para falar a verdade, uma família que não pode ser considerada boa família. Até as mulheres que não são consideradas de família pertencem à família Silva.
João da Silva – Nunca nenhum de nós esquecerá seu nome. Você não possuía sangue azul. O sangue que saía de sua boca era vermelho – vermelhinho da silva. Sangue de nossa família. Nossa família, João, vai mal em política. Sempre por baixo. Nossa família, entretanto, é que trabalha para os homens importantes. A família Crespi, a família Matarazzo, a família Guinle, a família Rocha Miranda, a família Pereira Carneiro, todas essas famílias assim são sustentadas pela nossa família. Nós auxiliamos várias famílias importantes na América do Norte, na Inglaterra, na França, no Japão. A gente de nossa família trabalha nas plantações de mate, nos pastos, nas fazendas, nas usinas, nas praias, nas fábricas, nas minas, nos balcões, no mato, nas cozinhas, em todo lugar onde se trabalha, levanta os prédios, conduz os bondes, enrola o tapete do circo, enche os porões dos navios, conta o dinheiro dos Bancos, faz os jornais, serve no Exército e na Marinha. Nossa família é feito Maria Polaca: faz tudo.
Apesar disso, João da Silva, nós temos de enterrar você é mesmo na vala comum. Na vala comum da miséria. Na vala comum da glória, João da Silva. Porque nossa família um dia há de subir na política...
Várias tipologias textuais podem ser observadas na construção dessa crônica. Nesse sentido, assinale a alternativa correta.
- Ao privilegiar a tipologia narrativa, não se percebem traços descritivos no texto, que é pautado pela dinâmica da sequência de ações.
- Se percebe o caráter injuntivo do texto por meio das reflexões pessoais que o enunciador apresenta no segundo parágrafo.
- O predomínio narrativo do parágrafo inicial colabora para a argumentação desenvolvida ao longo do texto.
- Seguida da descrição, a narração representa a tipologia predominante na organização discursiva do texto.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
Predomínio narrativo no parágrafo inicial: o texto abre com uma cena concreta (a Assistência, o homem na calçada, a poça de sangue, o necrotério, o nome no jornal). Esses elementos configuram uma mini-narrativa factual que prende a atenção e apresenta o caso individual de João da Silva.
Função dessa narrativa: serve como exemplo imediato que fundamenta a reflexão seguinte. A descrição concreta confere verossimilhança e emoção, criando empatia e legitimando a interpretação social que virá.
Relação com a argumentação desenvolvida: a transição para o "nós" coletivo transforma o episódio em prova ilustrativa. A partir do fato narrado, o cronista generaliza, expõe injustiças e constrói sua tese sobre a invisibilidade social da "família Silva". Assim, a narrativa inicial sustenta e orienta toda a argumentação posterior.
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