Questão FC506653
Texto Saímos de Manaus numa lancha pequena, e no meio da manhã navegamos no coração do arquipélago das Anavilhanas. A ânsia de encontrar Dinaura me deixou desnorteado. A ânsia e as
Tipologia e Gênero Textual
IBFC · 2022
Texto
Saímos de Manaus numa lancha pequena, e no meio da manhã navegamos no coração do arquipélago das Anavilhanas. A ânsia de encontrar Dinaura me deixou desnorteado. A ânsia e as lembranças da Boa Vida. A visão do rio Negro derrotou meu desejo de esquecer o Uaicurapá. E a paisagem da infância reacendeu minha memória, tanto tempo depois.
Costelas de areia branca e estriões de praia em contraste com a água escura; lagos cercados por uma vegetação densa; poças enormes, formadas pela vazante, e ilhas que pareciam continente. Seria possível encontrar uma mulher naquela natureza tão grandiosa? No fim da manhã alcançamos o Paraná do Anum e avistamos a ilha do Eldorado. O prático amarrou os cabos da lancha no tronco de uma árvore; depois procuramos o varadouro indicado no mapa. A caminhada de mais de duas horas na floresta foi penosa, difícil. No fim do atalho, vimos o lago do Eldorado. A água preta, quase azulada. E a superfície lisa e quieta como um espelho deitado na noite. Não havia beleza igual. Poucas casas de madeira entre a margem e a floresta. Nenhuma voz. Nenhuma criança, que a gente sempre vê nos povoados mais isolados do Amazonas. O som dos pássaros só aumentava o silêncio. Numa casa com teto de palha pensei ter visto um rosto. Bati à porta, e nada. Entrei e vasculhei os dois cômodos separados por um tabique1 da minha altura.
Um volume escuro tremia num canto. Fui até lá, me agachei e vi um ninho de baratas-cascudas. Senti um abafamento, o cheiro e o asco dos insetos me deram um suadouro. Lá fora, a imensidão do lago e da floresta.
E silêncio. Aquele lugar tão bonito, o Eldorado, era habitado pela solidão. No fim do povoado encontramos uma casa de farinha. Escutamos uns latidos; o prático apontou uma casa na sombra da floresta. Era a única coberta de telhas, com uma varanda protegida por treliça de madeira e uma lata com bromélias ao lado da escadinha. Um ruído no lugar. Na porta vi o rosto de uma moça e fui sozinho ao encontro dela. Escondeu o corpo e eu perguntei se morava ali.
(HATOUM, Milton. Órfãos do Eldorado. São Paulo:
Companhia das Letras, 2008, p.101-102)1 divisória, tapume
O texto é organizado em um único parágrafo, uma espécie de bloco narrativo que possui uma coerência interna e representa, na estrutura:
- um reflexo da realidade do leitor.
- as sensações internas do narrador.
- o ordenamento de um espaço inexistente.
- as emoções da personagem Dinaura.
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Gabarito
B
Comentário do professor
A alternativa correta mostra que o parágrafo funciona como expressão das sensações internas do narrador.
A narração em primeira pessoa e verbos como "senti", "desnorteado" e "ânsia" evidenciam o papel do narrador-personagem e uma focalização claramente subjetiva.
As descrições do rio, da ilha e do ninho de baratas são filtradas por memórias e afetos: recordações da Boa Vida, da infância e do Uaicurapá conduzem avaliações emocionais que transformam a paisagem em reflexo do mundo íntimo.
O vocabulário sensorial (cheiro, asco, abafamento, silêncio) e imagens metafóricas como "superfície lisa e quieta como um espelho" reforçam a predominância da subjetividade sobre um relato meramente objetivo.
O ritmo do trecho e a alternância entre cenas externas e lembranças consolidam a coerência interna, organizando o texto a partir das impressões e emoções do narrador.
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