Questão FC506659
O texto abaixo foi escrito pela escritora brasileira Elvira Vigna, com base na obra “Auf der Galerie”, do alemão Franz Kafka. na arquibancada Já fica esquisito alguém visitar deuse
Tipologia e Gênero Textual
IBFC · 2022
O texto abaixo foi escrito pela escritora brasileira Elvira Vigna, com base na obra “Auf der Galerie”, do alemão Franz Kafka.
na arquibancada
Já fica esquisito alguém visitar deuses. Porque, digamos, tem uma diferença, certo? Os caras são deuses, você não. E esse personagem de Kafka está visitando deuses. Digamos que seja você, lá. Então você está lá, meio de bobeira, sem participar de nada.
Qualquer gesto que pense em fazer e já dá até vergonha. Os caras fazem muito melhor. Mas então tá. Para passar o tempo, vocês vão ao circo. A mocinha faz acrobacia em cima do cavalo. Você imagina: e se ela for uma coitadinha? Se ela fosse uma coitadinha, taí, você podia ajudar! Explorada pelo dono do circo, fraquinha, com tuberculose. Obrigada a ficar dando volta e mais volta no picadeiro. O dono do circo sendo um monstro, não deixa ela parar. Coitada da mocinha, quase morre de exaustão. Se fosse assim, você poderia... Sim, você correria pela arquibancada berrando: “Pare!” Orquestra é uma coisa muito obediente. Só gritar “Pare!” que ela para. E aí, mesmo sendo só um visitante, você salvaria a mocinha. Mas a situação real não te ajuda. Atrás das cortinas, o dono do circo ajeita a mocinha no cavalo. Ele adora ela. É a netinha que ele nunca teve. E ela vai, toda lindinha, dar o salto mortal. Todo mundo bate palma. Ela está muito feliz. O dono do circo está muito feliz. Você fica sem nada para fazer, está tudo tão bem. Maior frustração, você até chora um pouquinho. Você é completamente inútil. Visitante de deuses, aliás, é título que merece ser atualizado. Super-herói. Um cara sem tantos poderes, mas com alguns. E aí fica esse incômodo: Super-herói tem aquela vontade doida de salvar o universo. A civilização ocidental ou pelo menos a mocinha. (Os três são meio que sinônimos.) Então, para um super-herói existir, precisa haver algo ruim. Alguém completamente não-gostável por exemplo. O super-herói tem de criar um vilão para se justificar. É uma tristeza quando tudo está bem. Ele meio que não tem razão de existir.
(VIGNA, Elvira. Kafkianas. São Paulo: Todavia, 2018, p.22-23)
No início do texto, a autora faz uso recorrente expressivo do pronome “você”. Tal uso contribui para o seguinte efeito:
- direcionamento do texto a apenas um grupo de leitores que conhece Kafka.
- convocação de um leitor genérico a fim de que se aproxime do que é contado.
- distanciamento circunstancial, visando à objetividade, entre o enunciador e o leitor.
- especificação precisa do interlocutor com quem a autora conversava no ato da escrita.
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Gabarito
B
Comentário do professor
Convocação: o emprego repetido de você funciona como um chamado direto ao leitor, convidando-o a ocupar o lugar do narrador-personagem e a imaginar-se na cena descrita.
Esse recurso amplia o alcance do enunciado, por isso falamos em leitor genérico: não é um interlocutor específico, mas qualquer leitor capaz de se identificar com a situação narrada.
O efeito é de proximidade e envolvimento. O texto ganha tom conversacional e implicita participação emocional do leitor, que passa de observador distante a agente imaginário das reações sugeridas.
Assim, a escolha do pronome cria empatia e ativa a identificação, tornando mais eficaz a reflexão sobre inutilidade, desejo de ação e frustração que a narrativa explora.
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