Questão FC506677
- Não tem figura?
Paralelismo
IBFC · 2025
Analise o texto a seguir para responder a questão.
Lenine
(Manuel Bandeira)
Homens há que levam uma vida obscura e só depois da morte se vai tecendo a lenda em que se lhes perfaz a glorificação. A outros, ao contrário, a lenda os anuncia. Surge primeiro um nome, até então de todo desconhecido, e em torno dele as imaginações trabalham, as informações contraditórias pululam, e à mercê desse lento processo de cristalização uma estranha figura vai avultando extra-real e muitas vezes com proporções até nitidamente inumanas.
Lenine era para mim um desses nomes. E no entanto, preciso dizê-lo, Lenine foi uma das grandes decepções de minha vida. Assim acontece sempre quando a imaginação superexcitada longamente se encontra de repente face a face com a realidade no cotidiano das coisas.
Lenine!... Lembram-se como essas três sílabas começaram a aparecer no serviço telegráfico da guerra? No atordoamento das derrotas russas o nome se insinuava misteriosamente como de um habilíssimo espião a soldo de agentes alemães e servindo contra a sua própria pátria. Lenine era isto. Lenine era aquilo. Lenine era agente alemão?
O nome por si só vivia de uma vida intensa. Dir-se-ia criação verbal de um grande poeta, um desses grandes artistas que guardam toda a força mesmo sob os gestos de maior carinho. [...]
Quando, porém, chegou a hora de maiores intimidades intelectuais, Lenine se mostrou já imbuído do que há de mais odioso no espírito pequeno-burguês: a preocupação do ganho, a cobiça dos bens materiais, o gozo e delícia da propriedade.
Se me encontrava na rua, pedia tostão. Se me via à janela, entrava a pedinchar quanto deparava em minha sala: - Me dá um livro! aquele! - Aquele é em francês, você não entende.
- Então aquele!
- Aquele é em inglês.
- Não tem figura?
- Não tem figura.
- Deixe ver! [...]
(ANDRADE, Carlos Drummond de et al. Elenco de cronistas modernos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995)
Em “Lenine era isto. Lenine era aquilo.” (em vermelho), o efeito de exagero na caracterização do personagem é produzido em razão:
- da repetição do nome próprio.
- das orações em paralelismo sintático.
- do emprego de verbos no passado.
- dos pronomes demonstrativos.
- da linguagem figurada.
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Gabarito
B
Comentário do professor
Paralelismo sintático é o recurso responsável pelo efeito de exagero em “Lenine era isto. Lenine era aquilo.”
As duas orações repetem a mesma estrutura (sujeito + verbo + predicativo), criando um ritmo mecânico e acumulativo. Essa reprodução formal transforma afirmações vagas em presença insistente: a repetição estrutural dá peso às declarações, mesmo quando o conteúdo é impreciso.
Além disso, os pronomes indefinidos “isto” e “aquilo”, colocados na mesma posição sintática, amplificam a indeterminação e fazem a caracterização parecer ampla e desmedida, simulando boatos que se ampliam pela repetição.
Assim, o paralelismo converte repetição em hipérbole narrativa, intensificando a caricatura do personagem.
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