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Questão FC54060

Um dos problemas-chave a resolver é, precisamente, a produção de símbolos – arte, comunicação, literatura – num mundo em que a vida continua sendo comprada e vendida como mercadori

Pontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc)

FGV

Texto 

Muito além de Gutenberg

Nos últimos anos, graças a certas ferramentas tecnológicas, mas especialmente a algumas mudanças de paradigma, os antigos conceitos de liberdade de informação e propriedade intelectual estão sendo superados. Em seu lugar, surgem idéias como comunicação compartilhada, inteligência coletiva, fim da passividade do receptor, direito à intercomunicação. Essas mudanças têm enormes repercussões em nossa vida social, econômica, política e simbólica. Estão, por sua vez, relacionadas a sinais de que uma outra lógica de organização das sociedades – capaz de superar a que está baseada no lucro e na competição – é possível e necessária.

Um dos problemas-chave a resolver é, precisamente, a produção de símbolos – arte, comunicação, literatura – num mundo em que a vida continua sendo comprada e vendida como mercadoria. Em outras palavras: se queremos que as obras culturais circulem e sejam apropriadas e recriadas por todos; se queremos fazer de cada ser humano um criador cultural, como remunerar o trabalho do artista? Como permitir que, sendo livre seu trabalho, possa ele alimentar-se, vestir-se, habitar, viajar, equipar- se – em suma, satisfazer suas múltiplas necessidades e desejos?

(...)

No terreno da produção simbólica, o período que vivemos é marcado por duas tendências contraditórias. Alguns fatores tendem a padronizar os produtos de forma cada vez mais intensa. Garantir a circulação de um jornal diário em papel, na escala e nos padrões de “qualidade” requeridos pelo mercado, exige investimentos de dezenas de milhões de reais. As produções cinematográficas tradicionais consomem uma parcela cada vez maior de seu orçamento com publicidade.

No entanto, dois fatores combinados têm servido como uma contratendência formidável, que questiona a própria idéia de mercantilização da produção simbólica. A primeira é tecnológica: a internet começou, há vários anos, a erodir a receita da indústria cultural. Primeiro, veio o compartilhamento de música, sem contrapartida financeira. Depois – e ainda mais interessante e transformador – surgiram as possibilidades não apenas de trocar o que já está pronto, mas de criar em conjunto, a partir de múltiplos pontos do planeta.

Esses enormes passos tecnológicos teriam pouco sentido e efeito se não coincidissem com um profundo mal-estar em relação aos paradigmas que marcaram a modernidade – em especial a mercantilização do mundo. Tem crescido – o Fórum Social Mundial é expressão disso – a consciência de que o mercado, embora surgisse como uma ferramenta de libertação do ser humano, se não controlado, domina seu criador. Já não somos o que somos, mas o que compramos. O mais interessante é que surgem, em paralelo, alternativas. Afirma-se a lógica dos direitos. Debate-se, nos Fóruns Sociais, a idéia de que certos bens e serviços, necessários para assegurar vida digna, devem ser oferecidos a todos os seres humanos do planeta, independentemente de sua capacidade de pagar por eles. Acesso à terra, água potável, eletricidade, renda básica da cidadania, saúde de qualidade, educação, internet, bens culturais. A lista vai se refinando, felizmente, e é possível vislumbrar o dia em que essa lógica se desdobrará no direito a viajar para ter contato com novas culturas, ou no direito à psicanálise. Tecnologia é fator secundário. Conhecimento livre é movido pela busca de nova lógica social e desencanto com oligopólio das narrativas.

É precisamente nesse contexto que surgem o direito à intercomunicação, a inteligência coletiva, o fim da passividade do receptor, o conhecimento livre. Graças à tecnologia – mais especialmente à busca de um mundo organizado segundo uma nova lógica social –, está se esfacelando um dos grandes instrumentos de dominação da era capitalista: o oligopólio das narrativas e discursos. Embora partidária do neoliberalismo, a revista Economist apontou, num estudo publicado em meados de 2006, que está se encerrando a era da comunicação de massa. Iniciada com a invenção dos tipos móveis, por Gutenberg, ela foi marcada pela produção de um volume cada vez mais maciço de bens simbólicos, por um número cada vez mais reduzido de emissores. Em seu lugar, está surgindo a era da comunicação pessoal e participativa. Sua marca será o poder que uma parcela cada vez maior da humanidade terá para se livrar da condição de mero consumidor e tornar-se, também, produtor de bens simbólicos. As transformações serão tão profundas que Economist chega a prever o fim do jornal diário impresso, ainda na primeira metade do século atual.

A mudança de paradigma, extremamente positiva, cria dois problemas complexos. O primeiro é a necessidade de recriar espaços públicos de debate, para evitar que a multiplicação dos produtores de conteúdo gere apenas um caos multifônico. O fato de cada ser humano ser um produtor de narrativas e discursos não deve significar que cada um se satisfaça consigo mesmo e dispense o diálogo. Nesse caso, estaríamos diante de uma nova forma de incomunicação e alienação. (...)

(Antonio Martins. In: Le Monde Diplomatique Brasil, outubro de 2007)

“Depois – e ainda mais interessante e transformador – surgiram as possibilidades não apenas de trocar o que já está pronto, mas de criar em conjunto, a partir de múltiplos pontos do planeta.”

Assinale a alternativa com pontuação igualmente correta para o trecho acima.
  1. Depois – e ainda mais interessante e transformador –, surgiram as possibilidades não apenas de trocar o que já está pronto, mas de criar em conjunto a partir de múltiplos pontos do planeta.
  2. Depois, e ainda mais interessante e transformador, surgiram as possibilidades, não apenas de trocar o que já está pronto, mas de criar em conjunto, a partir de múltiplos pontos do planeta.
  3. Depois, e ainda mais interessante e transformador, surgiram as possibilidades não apenas de trocar, o que já está pronto, mas de criar em conjunto a partir de múltiplos pontos do planeta.
  4. Depois – e ainda mais interessante e transformador – surgiram as possibilidades não apenas de trocar, o que já está pronto, mas de criar, em conjunto a partir de múltiplos pontos do planeta.
  5. Depois (e ainda mais interessante e transformador) surgiram as possibilidades, não apenas de trocar o que já está pronto mas de criar em conjunto, a partir de múltiplos pontos do planeta.
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Gabarito

A

Comentário do professor

A alternativa A está correta porque a pontuação isola e organiza as informações de modo claro.

Os dois travessões servem para inserir a observação e ainda mais interessante e transformador como elemento parentético, podendo também ser substituída por parênteses.

A presença da vírgula após o segundo travessão marca o deslocamento inicial do advérbio Depois, separando-o do restante da oração sem prejuízo sintático.

A locução correlativa não apenas... mas não exige vírgula antes de não; a vírgula antes de mas é facultativa e aqui ajuda na clareza.

Não se deve inserir vírgula entre o verbo trocar e seu complemento o que já está pronto. Os adjuntos em conjunto e a partir de múltiplos pontos do planeta são complementos circunstanciais, sem necessidade de isolamento por vírgulas.

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