Questão FC544628
Talvez uma das ignorâncias que temos, quando o assunto é o futuro, seja acreditar sobremaneira nele Por Mário Corso O tempo é algo tão abstrato que precisamos de suportes espaciais
Ortografia
FUNDATEC · 2025
Talvez uma das ignorâncias que temos, quando o assunto é o futuro, seja acreditar sobremaneira nele
Por Mário Corso
O tempo é algo tão abstrato que precisamos de suportes espaciais para concebê-lo. Pensamos o passado como estando às nossas costas, pois o futuro estaria à nossa frente, tanto que caminhamos em sua direção. Isso nos parece tão óbvio que nem nos ocorre que possa ser uma construção cultural.
Os Aymaras, a segunda maior etnia ameríndia da América do Sul, pensam de outra forma. Eles percebem o passado estando à frente, logo, o futuro estaria atrás. O argumento deles para esta _________ é muito bom. O passado foi visto, nossos olhos testemunharam-no. Do futuro não sabemos, somos cegos pra ele, da mesma forma que não enxergamos o que está atrás de nós.
O pensamento aymara também usa o apoio espacial, mas o _____ está na percepção visual. Na verdade, é mais do que isso, o que sabemos do passado é uma operação cognitiva mais ampla, e é este ponto a que eles se referem. O passado é conhecido (visto); o futuro, desconhecido (invisível).
De alguma forma intuímos isso. O escritor inglês Samuel Taylor Coleridge usou mais de uma vez o mote da lanterna de popa para se referir ao modo como experienciamos a vida. Ele pede para imaginarmos um barco viajando na noite, só enxergando por onde passou.
Como a lanterna está atrás (popa), não ilumina o caminho que está à frente (proa). Ele usa a metáfora para dizer que navegamos em direção ao futuro, mas só compreendemos o passado. Em outras palavras, os olhos do entendimento estão na nuca.
A maior vantagem de estudar outras culturas está em entender melhor a nossa. Passamos a perceber que algo que damos como natural pode ser apenas uma convenção cultural. Ou seja, é a nossa forma de entender um ponto, e não a única, e nem sempre a mais rica para ajudar o pensamento.
Como temos uma tecnologia muito mais avançada, olhamos para os povos autóctones com soberba, como se eles não tivessem nada a nos ensinar, ou a nos fazer pensar. Talvez uma das ignorâncias que temos, quando o assunto é o futuro, seja acreditar ________ nele, a tal ponto de ____________ o que vem do passado. Afinal, é lá que habita a experiência, não só a dos velhos, mas a dos povos antigos, que tantos futuros afoitos apagaram do nosso acervo de saberes.
(Disponível em: www.gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/mario-corso/noticia/2024/10– texto adaptado especialmente para esta prova).
Considerando a correta grafia das palavras em Língua Portuguesa, assinale a alternativa que preenche, correta e respectivamente, as lacunas tracejadas
- consepção – eixo – demaziado – despresarmos
- concepsão – eicho – demasiado – desprezarmos
- concepção – eixo – demasiado – desprezarmos
- conscepção – eicho – demasiado – despresarmos
- consepção – eixo – demasiado – despresarmos
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
A alternativa C completa corretamente as lacunas: concepção, eixo, demasiado, desprezarmos.
Concepção leva ç antes de ão por se formar com o sufixo -ção. O sentido encaixa: trata-se da ideia ou entendimento aymara sobre tempo.
Eixo escreve-se com x, indicando o suporte espacial referido no trecho (o eixo da percepção visual).
Demasiado grafado com s entre vogais tem som de /z/ e significa "em excesso", perfeito para "acreditar demasiado nele".
Desprezarmos mantém o z do radical "prezar"/"prezo", formando o verbo com sentido de menosprezar aquilo que vem do passado.
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