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Questão FC544745

Talvez uma das ignorâncias que temos, quando o assunto é o futuro, seja acreditar sobremaneira nele Por Mário Corso O tempo é algo tão abstrato que precisamos de suportes espaciais

Semântica

FUNDATEC · 2025

Talvez uma das ignorâncias que temos, quando o assunto é o futuro, seja acreditar sobremaneira nele

Por Mário Corso

 

O tempo é algo tão abstrato que precisamos de suportes espaciais para concebê-lo. Pensamos o passado como estando às nossas costas, pois o futuro estaria à nossa frente, tanto que caminhamos em sua direção. Isso nos parece tão óbvio que nem nos ocorre que possa ser uma construção cultural.

Os Aymaras, a segunda maior etnia ameríndia da América do Sul, pensam de outra forma. Eles percebem o passado estando à frente, logo, o futuro estaria atrás. O argumento deles para esta concepção é muito bom. O passado foi visto, nossos olhos testemunharam-no. Do futuro não sabemos, somos cegos pra ele, da mesma forma que não enxergamos o que está atrás de nós.

O pensamento aymara também usa o apoio espacial, mas o eixo está na percepção visual. Na verdade, é mais do que isso, o que sabemos do passado é uma operação cognitiva mais ampla, e é este ponto a que eles se referem. O passado é conhecido (visto); o futuro, desconhecido (invisível).

De alguma forma intuímos isso. O escritor inglês Samuel Taylor Coleridge usou mais de uma vez o mote da lanterna de popa para se referir ao modo como experienciamos a vida. Ele pede para imaginarmos um barco viajando na noite, só enxergando por onde passou.

Como a lanterna está atrás (popa), não ilumina o caminho que está à frente (proa). Ele usa a metáfora para dizer que navegamos em direção ao futuro, mas só compreendemos o passado. Em outras palavras, os olhos do entendimento estão na nuca.

A maior vantagem de estudar outras culturas está em entender melhor a nossa. Passamos a perceber que algo que damos como natural pode ser apenas uma convenção cultural. Ou seja, é a nossa forma de entender um ponto, e não a única, e nem sempre a mais rica para ajudar o pensamento.

Como temos uma tecnologia muito mais avançada, olhamos para os povos autóctones com soberba, como se eles não tivessem nada a nos ensinar, ou a nos fazer pensar. Talvez uma das ignorâncias que temos, quando o assunto é o futuro, seja acreditar demasiado nele, a tal ponto de desprezarmos o que vem do passado. Afinal, é lá que habita a experiência, não só a dos velhos, mas a dos povos antigos, que tantos futuros afoitos apagaram do nosso acervo de saberes.

(Disponível em: www.gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/mario-corso/noticia/2024/10– texto adaptado especialmente para esta prova).

 

Assinale a alternativa cujos vocábulos, melhor e respectivamente, poderiam substituir “autóctones” e “soberba”, sem causar alterações ao sentido e à estrutura original do texto.

  1. Autônomos – sobriedade.
  2. Nativos – arrogância.
  3. Tecnológicos – presunção.
  4. Nacionais – frugalidade.
  5. Primitivos – sabedoria.
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Gabarito

B

Comentário do professor

A questão pede substituições sinônimas para autóctones e soberba no contexto do texto.

Autóctones significa aqueles que são originários de um lugar, habitantes naturais da região. Nativos mantém esse sentido e se encaixa sintaticamente na frase, preservando a referência aos povos indígenas e ao contraste com tecnologia.

Soberba transmite a ideia de excesso de orgulho, superioridade e desdém. Arrogância é termo equivalente em sentido e intensidade e funciona semanticamente no trecho, apontando a atitude dos que desprezam saberes alheios.

Portanto, a dupla nativos – arrogância substitui corretamente os vocábulos originais sem alterar sentido nem estrutura do texto.

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