Questão FC544779
Talvez uma das ignorâncias que temos, quando o assunto é o futuro, seja acreditar sobremaneira nele Por Mário Corso O tempo é algo tão abstrato que precisamos de suportes espaciais
Semântica
FUNDATEC · 2025
Talvez uma das ignorâncias que temos, quando o assunto é o futuro, seja acreditar sobremaneira nele
Por Mário Corso
O tempo é algo tão abstrato que precisamos de suportes espaciais para concebê-lo. Pensamos o passado como estando às nossas costas, pois o futuro estaria à nossa frente, tanto que caminhamos em sua direção. Isso nos parece tão óbvio que nem nos ocorre que possa ser uma construção cultural.
Os Aymaras, a segunda maior etnia ameríndia da América do Sul, pensam de outra forma. Eles percebem o passado estando à frente, logo, o futuro estaria atrás. O argumento deles para esta concepção é muito bom. O passado foi visto, nossos olhos testemunharam-no. Do futuro não sabemos, somos cegos pra ele, da mesma forma que não enxergamos o que está atrás de nós.
O pensamento aymara também usa o apoio espacial, mas o eixo está na percepção visual. Na verdade, é mais do que isso, o que sabemos do passado é uma operação cognitiva mais ampla, e é este ponto a que eles se referem. O passado é conhecido (visto); o futuro, desconhecido (invisível).
De alguma forma intuímos isso. O escritor inglês Samuel Taylor Coleridge usou mais de uma vez o mote da lanterna de popa para se referir ao modo como experienciamos a vida. Ele pede para imaginarmos um barco viajando na noite, só enxergando por onde passou.
Como a lanterna está atrás (popa), não ilumina o caminho que está à frente (proa). Ele usa a metáfora para dizer que navegamos em direção ao futuro, mas só compreendemos o passado. Em outras palavras, os olhos do entendimento estão na nuca.
A maior vantagem de estudar outras culturas está em entender melhor a nossa. Passamos a perceber que algo que damos como natural pode ser apenas uma convenção cultural. Ou seja, é a nossa forma de entender um ponto, e não a única, e nem sempre a mais rica para ajudar o pensamento.
Como temos uma tecnologia muito mais avançada, olhamos para os povos autóctones com soberba, como se eles não tivessem nada a nos ensinar, ou a nos fazer pensar. Talvez uma das ignorâncias que temos, quando o assunto é o futuro, seja acreditar demasiado nele, a tal ponto de desprezarmos o que vem do passado. Afinal, é lá que habita a experiência, não só a dos velhos, mas a dos povos antigos, que tantos futuros afoitos apagaram do nosso acervo de saberes.
(Disponível em: www.gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/mario-corso/noticia/2024/10– texto adaptado especialmente para esta prova).
No texto, o conector “ou” introduz ideia de:
- Alternância.
- Concomitância.
- Oposição.
- Causalidade.
- Explicação.
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Gabarito
A
Comentário do professor
Alternância é a ideia expressa pela conjunção ou quando apresenta duas possibilidades entre as quais se opta ou que se contrapõem como alternativas na mesma oração.
No trecho "como se eles não tivessem nada a nos ensinar, ou a nos fazer pensar", ou conecta duas avaliações paralelas sobre os povos autóctones, sinalizando que uma delas ou a outra pode ser considerada: têm nada a ensinar ou têm nada a nos fazer pensar.
Trata‑se de uma conexão coordenativa que marca escolha/alternância entre propostas sem subordinação. A leitura correta é entender ou como marcador de alternativas sem indicar causa ou explicação.
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