Questão FC544792
Leia o texto para responder a questão abaixo. A Fobia do Nada Por que executivos desenvolvem aversão ao vazio produtivo Por Claudia Miranda Gonçalves Um cliente meu, que é um execu
Semântica
Unifil · 2025
Leia o texto para responder a questão abaixo.
A Fobia do Nada
Por que executivos desenvolvem aversão ao vazio produtivo
Por Claudia Miranda Gonçalves
Um cliente meu, que é um executivo, estava há muito tempo em uma empresa e cogita uma transição. Depois de meses avaliando uma mudança de carreira, tinha clareza sobre seus próximos passos - mas ainda não tinha uma nova posição assegurada. Quando compartilhou seus planos com amigos e parentes, a reação foi unânime: “Não saia antes de ter outra coisa engatilhada.” Ele suspendeu o movimento.
Mas o que realmente o paralisou não foi a sabedoria financeira do conselho. Foi o terror do vazio. A perspectiva de alguns meses sem título, sem função, sem a validação diária de ser “necessário” em algum lugar. O preço que ele tem pagado por evitar essa suspensão temporária de relevância? A erosão gradual de sua autoestima e dignidade, preso em uma posição que já não o serve.
Do que você realmente tem medo quando para de produzir valor? A resposta mais honesta talvez não seja “instabilidade financeira” ou “prejuízo na carreira”. Pode ser algo muito mais primitivo: o terror do vazio, de descobrir quem você é quando não está sendo “executivo de alguma coisa”.
Desenvolvemos uma condição comportamental devastadora: intolerância crônica ao vazio produtivo - uma incapacidade de tolerar momentos ou períodos que não geram resultado mensurável. Por trás dessa compulsão se esconde nosso maior medo: a irrelevância.
A Dependência da Estimulação Constante
Como o meu cliente acima, muitos de nós desenvolvemos vício comportamental nos picos de dopamina gerados pela produtividade constante. Neurocientistas identificam esse padrão: como qualquer dependência, exige doses crescentes de estímulo para manter a sensação de estar vivo, relevante e importante.
O tédio - estado neurológico essencial para consolidação de memórias e insights genuínos - virou inimigo público #1. Transformamos cada momento de baixa estimulação em “oportunidade de desenvolvimento”. Férias e caminhadas viraram “retiros de crescimento pessoal”.
A hipervigilância constante - estado de alerta permanente típico de ambientes de alta pressão - impede que o cérebro acesse o “modo padrão”, rede neuronal ativa durante momentos de repouso que é crucial para criatividade, autoconhecimento e regulação emocional.
Como viciados em movimento, desenvolvemos tolerância: precisamos de cada vez mais atividade para nos sentirmos produtivos. A parada gera síndrome de abstinência real: ansiedade, culpa, sensação física de estar “desperdiçando a vida”. Mas o que realmente tememos não é desperdiçar tempo - é enfrentar a pergunta: “Quem sou eu sem meu cargo?”
[...]
Disponível em https://www.estadao.com.br/economia/lentes-dedecisao/ a-fobia-do-nada/
No trecho “Como o meu cliente acima, muitos de nós desenvolvemos vício comportamental...”, a palavra “Como” estabelece uma relação sintático-semântica de
- causa, pois indica o motivo pelo qual o vício comportamental foi desenvolvido.
- conformidade, pois expressa que o desenvolvimento do vício ocorreu de acordo com o que aconteceu com o cliente.
- adição, pois soma a situação do cliente à de “muitos de nós”.
- comparação, pois aproxima a experiência de “muitos de nós” à do cliente mencionado, criando uma analogia.
- consequência, pois o que acontece com “muitos de nós” é um resultado direto do que aconteceu com o cliente.
Mostrar resposta e comentário
Gabarito
D
Comentário do professor
"Como o meu cliente acima, muitos de nós desenvolvemos vício comportamental..."
Aqui a palavra Como atua como conector comparativo, estabelecendo relação de comparação entre a situação particular do cliente e a experiência coletiva. Sintaticamente, introduz um elemento que aproxima duas realidades: a do exemplo concreto e a do grupo referido.
Semanticamente, cria uma analogia: o trecho comunica que o comportamento observado no cliente não é isolado, mas representa um padrão compartilhado. Em outras palavras, o autor generaliza a partir do caso, usando o exemplo para ilustrar uma tendência mais ampla.
Essa função reforça o argumento ao transferir as características do caso singular para uma categoria maior, implicando similaridade e solidariedade experiencial entre o indivíduo e "muitos de nós".
Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em