Questão FC544836
Talvez uma das ignorâncias que temos, quando o assunto é o futuro, seja acreditar sobremaneira nele Por Mário Corso O tempo é algo tão abstrato que precisamos de suportes espaciais
Sintaxe
FUNDATEC · 2025
Talvez uma das ignorâncias que temos, quando o assunto é o futuro, seja acreditar sobremaneira nele
Por Mário Corso
O tempo é algo tão abstrato que precisamos de suportes espaciais para concebê-lo. Pensamos o passado como estando às nossas costas, pois o futuro estaria à nossa frente, tanto que caminhamos em sua direção. Isso nos parece tão óbvio que nem nos ocorre que possa ser uma construção cultural.
Os Aymaras, a segunda maior etnia ameríndia da América do Sul, pensam de outra forma. Eles percebem o passado estando à frente, logo, o futuro estaria atrás. O argumento deles para esta concepção é muito bom. O passado foi visto, nossos olhos testemunharam-no. Do futuro não sabemos, somos cegos pra ele, da mesma forma que não enxergamos o que está atrás de nós.
O pensamento aymara também usa o apoio espacial, mas o eixo está na percepção visual. Na verdade, é mais do que isso, o que sabemos do passado é uma operação cognitiva mais ampla, e é este ponto a que eles se referem. O passado é conhecido (visto); o futuro, desconhecido (invisível).
De alguma forma intuímos isso. O escritor inglês Samuel Taylor Coleridge usou mais de uma vez o mote da lanterna de popa para se referir ao modo como experienciamos a vida. Ele pede para imaginarmos um barco viajando na noite, só enxergando por onde passou.
Como a lanterna está atrás (popa), não ilumina o caminho que está à frente (proa). Ele usa a metáfora para dizer que navegamos em direção ao futuro, mas só compreendemos o passado. Em outras palavras, os olhos do entendimento estão na nuca.
A maior vantagem de estudar outras culturas está em entender melhor a nossa. Passamos a perceber que algo que damos como natural pode ser apenas uma convenção cultural. Ou seja, é a nossa forma de entender um ponto, e não a única, e nem sempre a mais rica para ajudar o pensamento.
Como temos uma tecnologia muito mais avançada, olhamos para os povos autóctones com soberba, como se eles não tivessem nada a nos ensinar, ou a nos fazer pensar. Talvez uma das ignorâncias que temos, quando o assunto é o futuro, seja acreditar demasiado nele, a tal ponto de desprezarmos o que vem do passado. Afinal, é lá que habita a experiência, não só a dos velhos, mas a dos povos antigos, que tantos futuros afoitos apagaram do nosso acervo de saberes.
(Disponível em: www.gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/mario-corso/noticia/2024/10– texto adaptado especialmente para esta prova).
Analise as seguintes assertivas sobre propostas de alterações no texto, assinalando V, se verdadeiras, ou F, se falsas.
( ) A substituição de “tanto que” por “porque” não provocaria alteração de sentido entre as orações que relaciona.
( ) O sujeito do verbo “pensam” está implícito.
( ) O vocábulo “cegos” é um adjetivo, entretanto, em outro contexto, poderia ser classificado como substantivo.
A ordem correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é:
- V – V – V.
- V – F – V.
- F – V – F.
- F – F – V.
- F – F – F.
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Gabarito
D
Comentário do professor
Gabarito: F - F - V.
A primeira assertiva é Falsa. A expressão "tanto que" estabelece ideia de consequência; já "porque" introduz causa. Trocar uma conjunção consequencial por uma causal altera o sentido entre as orações.
A segunda assertiva é Falsa. Em «Os Aymaras, a segunda maior etnia..., pensam de outra forma», o sujeito é explícito e simples: Os Aymaras, portanto o verbo não tem sujeito oculto.
A terceira assertiva é Verdadeira. Em «somos cegos pra ele», cegos qualifica o sujeito «nós», atuando como adjetivo. Em outro contexto pode funcionar como substantivo, por exemplo: «Os cegos receberam atendimento.»
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