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Questão FC544968

Qual?

Linguagem

AVANÇASP · 2025

Leia o texto a seguir para responder à questão.

 

A eterna imprecisão da linguagem

 

— Que pão!

 

Doce? de mel? de açúcar? de ló? de ló de mico? de trigo? de milho? de mistura? de rapa? de saruga? de soborralho? do céu? dos anjos? brasileiro? francês? italiano? alemão? do chile? de forma? de bugio? de porco? de galinha? de pássaros? de minuto? ázimo? bento? branco? dormido? duro? sabido? saloio? seco? segundo? nosso de cada dia? ganho com o suor do rosto? que o diabo amassou?

 

— Uma uva!

 

Branca? preta? tinta? moscatel? isabel? maçã? japonesa? ursina? brava? bastarda? rara? de galo? de cão? de cão menor? do monte? da serra? do mato? de mato grosso? de facho? de gentio? de João Pais? do nascimento? do inverno? do inferno? de praia? de rei? de obó? da promissão? da promissão roxa? verde da fábula de La Fontaine? espim? do diabo?

 

— O diabo!

 

Lúcifer? Belzebu? Azazel? Exu? marinho? alma? azul? coxo? canhoto? beiçudo? rabudo? careca? tinhoso? pé de pato? pé de cabra? capa verde? romãozinho? bute? cafute? Pedro Botelho? temba? mafarrico? dubá? louro? a quatro?

 

— É uma flor.

 

Da noite? de um dia? do ar? da paixão? do besouro? da quaresma? das almas? de abril? de maio? do imperador? da imperatriz? de cera? de coral? de enxofre? de lã? de lis? de pau? de natal? de São Miguel? de São Benedito? da santa cruz? de sapo? do cardeal? do general? de noiva? de viúva? da cachoeira? de baile? de vaca? de chagas? de sangue? de Jesus? do espírito santo? dos formigueiros? dos amores? dos macaquinhos? dos rapazinhos? de pelicano? de papagaio? de mel? de merenda? de 11 horas? de trombeta? de mariposa? de veludo? do norte? do paraíso? de retórica? neutra? macha? estrelada? radiada? santa? que não se cheira?

 

— É uma bomba.

 

De sucção? de roda? de parede? premente? aspirante-premente? de incêndio? real? transvaliana? vulcânica? atômica? de hidrogênio? de chocolate? suja? de vestibular de medicina? de anarquista? de São João e São Pedro? de fabricação caseira? de aumento do preço do dólar? enfeitada? de zoncho? de efeito psicológico?

 

— É um amor.

 

Perfeito? perfeito da China? perfeito do mato? perfeito azul? perfeito bravo? próprio? materno? filial? incestuoso? livre? platônico? socrático? de vaqueiro? de carnaval? de cigano de perdição? de hortelão? de deus? do próximo? sem olho? à pátria? bruxo? que não ousa dizer seu nome?

 

— Vá em paz.

 

Armada? otaviana? romana? podre? dos pântanos? de Varsóvia? de requiescat? e terra?

 

— Vá com Deus.

 

Qual?

 

ANDRADE, C. D. A eterna imprecisão da linguagem.

Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 1968. Disponível em

<https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17404/a-eterna-

imprecisao-de-linguagem>. (Adaptado).

 

O sentido da expressão “que não se cheira”, atribuída a “uma flor” pelo narrador do texto, mobiliza especialmente a figura de linguagem:

  1. inversão.
  2. silepse.
  3. gradação.
  4. metáfora.
  5. repetição.
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Gabarito

D

Comentário do professor

Metáfora é a figura que opera por transposição de sentido: um termo é usado para representar outro com o qual mantém semelhança ou analogia, sem empregar palavras comparativas explícitas.

No trecho, a expressão que não se cheira aplicada à flor não descreve literalmente um odor ausente, mas transfere um sentido distinto por via figurada. A construção surpreende porque privar uma flor do cheiro é inesperado, logo funciona como imagem.

Assim, há uma substituição semântica: o atributo olfativo é usado para sugerir caráter inefável, intangível, proibido ou socialmente reservado da flor. Essa operação por semelhança e deslocamento de sentido caracteriza claramente a metáfora.

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