Questão FC544971
À noite não se lembrava do que acontecera de manhã. Vagamente pensava de muito longe e sem palavras o seguinte: já que sou, o jeito é ser. Os galos de que falai avisavam com um rep
Linguagem
OMNI · 2025
À noite não se lembrava do que acontecera de manhã. Vagamente pensava de muito longe e sem palavras o seguinte: já que sou, o jeito é ser. Os galos de que falai avisavam com um repetido dia. E da cansaço. Cantavam o cansaço. E as galinhas, que faziam delas? Indagava-se a moça. Os galos pelo menos cantavam.
Por falar em galinha, a moça às vezes comia num cotequim um ovo duro. Mas a tia lhes ensinara que comer ovo fazia mal para o fígado. Sendo assim, obediente afolecia, sentindo dores do lado esquerdo oposto ao fígado. Pois era muito impressionável e acreditava em tudo o que existia e no que não existia também. Mas não sabia enfrentar a realidade. Para ela a realidade era demais para ser acreditada. Aliás a palavra “realidade” não lhe dizia nada. Nem a mim, por Deus.
Quando dormia quase que sonhava que a tia lhe batia na cabeça. Ou sonhava estranhamente em sexo, ela que de aparência era assexuada. Quando acordava se sentia culpada sem saber por quê, talvez porque o que é bom devia ser proibido. Culpada e contente.
Por via das dúvidas se sentia de propósito culpada e rezava mecanicamente três ave-marias, amém, amém, amém...
Rezava mas sem Deus, ela não sabia quem era Ele e portanto Ele não existia. Acabou de descobrir que para ela, fora Deus, também a realidade era muito pouco.
Dava-se melhor com um irreal cotidiano, vivia em câmara leeeeenta, leper puuuuulando no aaaar sobre os ooooouteiros, o vago era o seu mundo terrestre, o vago era o de dentro da natureza.
(Clarice Lispector – A Hora da Estrela)
Sobre o texto, identifique a figura de linguagem predominante no alongamento das palavras “leeeeenta”, “puuuuulando”, “aaaar” e “ooooouteiros”:
- Aliteração.
- Metonímia.
- Onomatopeia.
- Prosopopeia.
- Metáfora visual.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
Onomatopeia é o recurso que cria palavras para reproduzir sons ou efeitos sonoros, aproximando a linguagem falada do ruído, do gesto ou da sensação auditiva. No texto, o alongamento das vogais funciona como uma imitação sonora: as formas "leeeeenta", "puuuuulando", "aaaar", "ooooouteiros" lembram um som arrastado.
O prolongamento vocálico atua como marca prosódica escrita, tornando audível no leitor o ritmo e a duração. Essa sonoridade sugere visualmente e audivelmente a ideia de lentidão e de movimento preguiçoso, criando uma imagem sensorial mais viva.
Em termos pragmáticos, a onomatopeia aqui não apenas imita ruído concreto, mas amplia o princípio de iconicidade: a forma gráfica reflete a experiência temporal do enunciado. O efeito é intensificar atmosfera e ritmo, integrando som e sentido.
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