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Questão FC544991

Talvez uma das ignorâncias que temos, quando o assunto é o futuro, seja acreditar sobremaneira nele Por Mário Corso O tempo é algo tão abstrato que precisamos de suportes espaciais

Interpretação de Textos (Compreensão)

FUNDATEC · 2025

Talvez uma das ignorâncias que temos, quando o assunto é o futuro, seja acreditar sobremaneira nele

Por Mário Corso

 

O tempo é algo tão abstrato que precisamos de suportes espaciais para concebê-lo. Pensamos o passado como estando às nossas costas, pois o futuro estaria à nossa frente, tanto que caminhamos em sua direção. Isso nos parece tão óbvio que nem nos ocorre que possa ser uma construção cultural.

Os Aymaras, a segunda maior etnia ameríndia da América do Sul, pensam de outra forma. Eles percebem o passado estando à frente, logo, o futuro estaria atrás. O argumento deles para esta concepção é muito bom. O passado foi visto, nossos olhos testemunharam-no. Do futuro não sabemos, somos cegos pra ele, da mesma forma que não enxergamos o que está atrás de nós.

O pensamento aymara também usa o apoio espacial, mas o eixo está na percepção visual. Na verdade, é mais do que isso, o que sabemos do passado é uma operação cognitiva mais ampla, e é este ponto a que eles se referem. O passado é conhecido (visto); o futuro, desconhecido (invisível).

De alguma forma intuímos isso. O escritor inglês Samuel Taylor Coleridge usou mais de uma vez o mote da lanterna de popa para se referir ao modo como experienciamos a vida. Ele pede para imaginarmos um barco viajando na noite, só enxergando por onde passou.

Como a lanterna está atrás (popa), não ilumina o caminho que está à frente (proa). Ele usa a metáfora para dizer que navegamos em direção ao futuro, mas só compreendemos o passado. Em outras palavras, os olhos do entendimento estão na nuca.

A maior vantagem de estudar outras culturas está em entender melhor a nossa. Passamos a perceber que algo que damos como natural pode ser apenas uma convenção cultural. Ou seja, é a nossa forma de entender um ponto, e não a única, e nem sempre a mais rica para ajudar o pensamento.

Como temos uma tecnologia muito mais avançada, olhamos para os povos autóctones com soberba, como se eles não tivessem nada a nos ensinar, ou a nos fazer pensar. Talvez uma das ignorâncias que temos, quando o assunto é o futuro, seja acreditar demasiado nele, a tal ponto de desprezarmos o que vem do passado. Afinal, é lá que habita a experiência, não só a dos velhos, mas a dos povos antigos, que tantos futuros afoitos apagaram do nosso acervo de saberes.

(Disponível em: www.gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/mario-corso/noticia/2024/10– texto adaptado especialmente para esta prova).

 

Considerando o exposto pelo texto, analise as assertivas a seguir e assinale V, se verdadeiras, ou F, se falsas.

( ) O futuro merece toda a nossa atenção devido, principalmente, ao fato de ser abstrato; entretanto, é preciso olhá-lo com objetividade para obter sucesso, desdenhando de experiências passadas.

( ) Ao citar os conhecimentos do povo Aymara e o escritor inglês Samuel Taylor Coleridge e suas ideias sobre como experienciamos a vida, o autor do texto agrega credibilidade às suas ideias acerca do tema apresentado.

( ) Os povos originários são responsáveis pela falta de conhecimento que hoje enfrentamos na construção do nosso futuro.

A ordem correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é:

  1. V – V – V.
  2. F – V – F.
  3. F – F – V.
  4. V – F – V.
  5. V – V – F.
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Gabarito

B

Comentário do professor

F – V – F.

F: a primeira assertiva é falsa porque o texto não recomenda desprezar o passado. Ao contrário, afirma que desprezar o que vem do passado é sinal de ignorância e que é no passado que habita a experiência. O autor valoriza as vivências e o conhecimento acumulado, em especial o dos povos antigos.

V: a segunda é verdadeira porque o autor recorre ao exemplo dos Aymara e à imagem de Coleridge para ilustrar e fundamentar suas ideias. Essas referências funcionam como apoio que aumenta a credibilidade do argumento apresentado.

F: a terceira é falsa pois o texto não atribui aos povos originários a falta de conhecimento; pelo contrário, destaca sua importância e critica a atitude de quem os despreza, ressaltando a necessidade de valorização.

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